Uma prata de ouro: o Brasil em Paris

Nos Jogos Olímpicos de 2024, em Paris, a seleção brasileira feminina de futebol fez história: superou todas as expectativas e voltou para casa com uma valiosa medalha de prata. 

O time inteiro foi muito elogiado por essa conquista - tanto no coletivo quanto no individual - mas talvez nenhum nome tenha ganhado tanto destaque durante o torneio quanto Gabi Portilho.

Em 2024, Portilho já era um nome forte no Brasileirão Feminino e um dos principais destaques do Corinthians. Pelo Timão, conquistou cinco títulos seguidos do Brasileirão, três Libertadores, três Campeonatos Paulistas, três Supercopas do Brasil e uma Copa Paulista. Ela foi decisiva em todas as campanhas, com boa visão de jogo e faro para marcar gols importantes. O técnico da seleção, Arthur Elias, convocou Portilho por essas qualidades e também pelo papel dela no elenco: aos 29 anos, ajudava a fazer a ligação entre jogadoras mais experientes, como Marta, e jovens promessas, como Aline Gomes. Ou seja, cumpria um papel importante tanto dentro quanto fora de campo.

Mas, mesmo tendo Portilho ao lado de Marta e de várias outras jogadoras brilhantes à disposição para o torneio, a seleção brasileira não chegou aos Jogos Olímpicos de 2024 como favorita. Na verdade, a expectativa era bem baixa.

Muito disso tem a ver com a campanha da equipe na Copa do Mundo Feminina de 2023, quando foi eliminada ainda na fase de grupos. 

Essa decepção ficou rondando a seleção na chegada a Paris - e acabou virando quase uma profecia que parecia se cumprir.

Um começo sem confiança

Mesmo com a vitória por 1 a 0 sobre a Nigéria na estreia, o Brasil não manteve o ritmo e acabou perdendo para o Japão e a Espanha na sequência.

As duas derrotas foram bem dramáticas. 

Contra o Japão, o Brasil vencia até os 47 minutos do segundo tempo, quando o Japão ganhou um pênalti, empatou e, poucos minutos depois, virou o jogo. Placar final: 2 a 1 para o Japão. 

Já contra a Espanha, que era a campeã na época, o Brasil foi dominado praticamente o jogo inteiro e perdeu de 2 a 0.

Para piorar, o time ainda perdeu várias jogadoras importantes logo no começo do torneio. Bia Zaneratto, uma das principais atacantes da seleção, sofreu uma lesão séria pouco antes da competição e nem chegou a ser convocada. Antônia, que tinha sido um dos destaques contra a Espanha, fraturou a perna e ficou fora do resto dos jogos. Marta levou cartão vermelho depois de uma entrada forte em Olga Carmona, ficando suspensa para a partida seguinte - isso se o Brasil ainda conseguisse se manter no torneio.

Sobreviver para continuar sonhando

Por sorte, conseguiu - mas por pouco. Avançou para o mata-mata como uma das duas melhores seleções que terminaram em terceiro lugar nos seus grupos. Foi um alívio enorme. O Brasil nunca tinha ficado fora do mata-mata após a fase de grupos - e não ia querer quebrar essa marca justo agora.

E assim o Brasil foi para as quartas de final, mas no país todo a sensação era de que a missão seria quase impossível. O time tinha perdido dois dos três jogos da fase de grupos, estava sem várias jogadoras importantes - por lesão ou suspensão - e, para piorar, ainda iria encarar a França, anfitriã jogando em casa.

E tinha mais um detalhe pesado: a seleção feminina brasileira nunca tinha vencido a França numa partida oficial - apenas em amistosos.

Mas teve uma jogadora que não deixou a esperança acabar antes mesmo do jogo: Gabi Portilho. A atacante lutou a carreira inteira para chegar a um palco tão grande como as Olimpíadas - e não ia sair sem brigar, nem deixar o ânimo das companheiras diminuir. 

Enquanto muita gente via a fase de grupos como um sinal de que as quartas seriam um desastre, Portilho enxergava aquilo como aprendizado e motivação para continuar acreditando: “Eu acho que aquilo foi a coisa mais importante que a gente viveu, porque foi ali que a gente se uniu, a gente se fechou.” (GE)

E foi assim que Portilho levou o Brasil para as quartas de final: não com medo ou pessimismo, mas de cabeça erguida. Com orgulho. Com confiança.

A missão impossível contra a França e o gol que calou Paris

A torcida da casa estava em peso naquela noite no Parc des Princes, e a França começou pressionando desde o primeiro minuto. 

No início da partida, as donas da casa ganharam um pênalti, mas a goleira brasileira Lorena defendeu. No final do primeiro tempo, a bola ainda acertou o travessão. 

A França seguia batendo na porta do gol, mas o Brasil, claro azarão do confronto, conseguia se defender de tudo e se manter no jogo. Ainda teve algumas chances próprias, mas o jogo ficou empatado.

E aí, aos 37 minutos do segundo tempo, Gabi Portilho usou a velocidade, chegou antes de duas defensoras francesas e bateu no canto do gol. O Parc des Princes ficou em choque. A líder decisiva do Corinthians, que nunca tinha sido convocada antes para uma Copa do Mundo ou Olimpíada, tinha acabado de levar o Brasil à vitória contra as donas da casa e uma das seleções mais fortes do mundo.

O nome dela começou a entrar na história - mas Portilho ainda não tinha terminado.

Surge uma nova protagonista mundial

A semifinal, uma revanche contra a Espanha, não foi nada fácil, e muitos torcedores brasileiros temiam uma repetição da derrota da fase de grupos. Mas a seleção voltou diferente em campo. Embalado pela confiança da vitória improvável contra a França, o time foi decisivo e praticamente impecável taticamente, vencendo por 4 a 2.

Gabi Portilho fez mais uma grande partida. Sem a bola, pressionou com intensidade; com a posse, participou da criação das jogadas e manteve um ritmo constante ao longo do jogo. A cada lance, demonstrava confiança e coragem. Em meio aos desfalques por lesão, a seleção precisava de uma nova protagonista - e ela assumiu esse papel. Marcou o segundo gol do Brasil e ainda deu a assistência para o terceiro, de Adriana.

Como já vinha acontecendo, Portilho também foi muito participativa na final contra os Estados Unidos, mas desta vez o esforço não foi suficiente. As norte-americanas conseguiram marcar no segundo tempo e conquistaram o título, se tornando campeãs do torneio pela quinta vez.

Um país que voltou a acreditar

Foi uma derrota apertada, mas o Brasil ainda não conseguiu conquistar o ouro olímpico no futebol feminino. Mesmo assim, a prata representou uma grande campanha - afinal, foi a primeira medalha de prata do país no torneio em 16 anos. A derrota veio contra a seleção americana, a maior vencedora da competição e também da Copa do Mundo Feminina.

Pouca gente acreditava no Brasil quando o torneio começou, mas a seleção saiu com a medalha de prata.

Mutsu Kawamori (Presse Sports)

Para muita gente, o nome que mais marcou aquela medalha foi o de Gabi Portilho - a heroína improvável que nunca tinha sido convocada para uma Olimpíada, a atacante imprevisível que saiu de casa aos 15 anos para correr atrás do sonho de ser jogadora profissional.

Como a irmã dela, Grazielli, disse em entrevista durante o torneio: “Ninguém imaginou que aquela menininha hoje estaria em Paris. Ela é o orgulho da família, ela é muito dedicada, ela representa muita coisa”. (G1)

E foi mais ou menos isso que a Portilho passou a representar no esporte brasileiro: essa capacidade de aparecer nos momentos mais difíceis e nunca desistir.

Do Brasil para o mundo

O desempenho dela chamou tanta atenção que o Gotham FC, dos Estados Unidos, decidiu contratá-la do Corinthians no fim do ano - e ela não decepcionou, ajudando o clube a conquistar o segundo título da liga.

No fim de 2024, Portilho ainda ficou em 18º na votação do Ballon d’Or Feminino. 

Além disso, levou a Bola de Prata da ESPN como melhor jogadora do Brasileirão Feminino e entrou no time ideal da FIFA de 2024 - sendo a única sul-americana da seleção.

Uma história que não vai ser esquecida

Claro, a conquista não é só de Gabi Portilho - ela mesma já deixou isso claro várias vezes, sempre fazendo questão de valorizar as companheiras e a comissão técnica por tudo o que construíram naquelas Olimpíadas.

Mas não dá para negar que o otimismo e a confiança dela acabaram contagiando o grupo inteiro e ajudaram a criar um clima de orgulho e determinação dentro do time. Foi uma seleção que chegou a um resultado histórico e ainda ajudou a colocar o futebol feminino de volta no centro das atenções, no Brasil e no mundo.

Com a medalha de prata no peito, Gabi Portilho dedicou aquela campanha surpreendente à próxima geração do futebol feminino no Brasil: “O esporte abre portas para muitas vidas. Ele salva vidas. Que isso seja um aprendizado. Essas meninas que conquistaram medalhas não tiveram tantas oportunidades. É difícil você viver num país que tem muito homicídio, feminicídio. Então, a gente precisa que o esporte abra mais as portas e valorize mais as mulheres. Porque as mulheres são competentes. As mulheres são guerreiras.” (GE)

O que Gabi Portilho e o resto da seleção brasileira fizeram em Paris não dá para subestimar. Foi um feito gigantesco, que foi contra todas as previsões, narrativas e expectativas. 

É um momento que deve ser lembrado por décadas, passado de geração em geração. 

Um dia, vamos contar para nossos filhos e netos a história daquelas Olimpíadas - de como o Brasil, com um elenco desfalcado e um início de torneio bem difícil, conseguiu se reerguer, vencer duas das seleções mais fortes do mundo e conquistar uma medalha de prata histórica.

Vamos lembrar da capitã Marta, claro. Da atuação gigante da goleira Lorena. Do trabalho tático de Arthur Elias.

E, toda vez que essa história for contada, vai ser impossível não lembrar das grandes atuações de Gabi Portilho - a atacante implacável que passou por cima de cada obstáculo e ajudou a levar o Brasil de volta à glória.

O Brasil no futebol feminino nas Olimpíadas de 2024

  • (25/07) Fase de grupos = Brasil 1 x 0 Nigéria

  • (28/07) Fase de grupos = Brasil 1 x 2 Japão

  • (31/07) Fase de grupos = Brasil 0 x 2 Espanha

  • (03/08) Quartas de final = Brasil 1 x 0 França

  • (06/08) Semifinal = Brasil 4 x 2 Espanha

  • (10/08) Final = Brasil 0 x 1 Estados Unidos