Foram vários os fatores que contribuíram para a conquista da Copa do Mundo pela Espanha, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, no domingo.

Reconhecida mundialmente pelo estilo de jogo baseado na posse de bola, a "La Roja" também se destaca pela intensidade sem a bola. Esse aspecto muitas vezes passa despercebido, mas sua pressão constante foi tão importante para o título quanto a qualidade dos passes.

Nesta Copa, apenas duas seleções recuperaram mais bolas no campo de ataque, enquanto 12% das posses da Espanha começaram no terço ofensivo - o maior índice de toda a competição.

A equipe não dava espaço para os adversários respirarem, muito menos tempo para escolherem a melhor opção. Ao longo do torneio, realizou 115 sequências de pressão coletiva, um número impressionante, especialmente diante das altas temperaturas enfrentadas.

O domínio da Espanha também passou pelo seu meio-campo, comandado por Rodri, vencedor do Ballon d'Or de 2024, ao lado de Fabián Ruiz e Dani Olmo, ambos indicados ao prêmio nos últimos anos.

Atuando como o cérebro da equipe, Rodri terminou a competição com 20 desarmes - o maior número do torneio - e 655 passes completados, um novo recorde em uma única edição da Copa do Mundo.

O craque do Manchester City ainda foi eleito o melhor jogador da competição, repetindo o feito que já havia alcançado na Euro dois anos antes.

A Copa de Rodri em números (segundo a ESPN):

  • 9 chances criadas

  • 81 passes progressivos

  • 556 conduções de bola

  • 34 recuperações de bola

  • 30 duelos no chão vencidos

Fluidez e opções

Ao lado de Fabián Ruiz e Dani Olmo, o jogador de 30 anos contou com dois companheiros de nível mundial, conhecidos pela inteligência tática. Mas, quando o assunto é o meio-campo, também é preciso destacar a contribuição de Mikel Oyarzabal.

O atacante da Real Sociedad marcou cinco gols na Copa, igualando o recorde de um jogador espanhol em uma única edição do torneio. No entanto, foi sua constante movimentação para buscar o jogo que mais incomodou os adversários, abrindo espaços para as infiltrações de Álex Baena e Lamine Yamal, vice-colocado no Ballon d'Or do ano passado.

Essa mobilidade de Oyarzabal como "falso 9" também dava à Espanha um jogador a mais no meio-campo, criando superioridade numérica. Com isso, Rodri sempre tinha mais uma opção de passe, enquanto a defesa da equipe também ganhava mais proteção.

Bem equilibrada tanto pela experiência quanto pelas características dos jogadores, a dupla formada por Aymeric Laporte e Pau Cubarsi recebeu muitos elogios pelo desempenho defensivo ao longo da Copa. Ainda assim, vale destacar que eles também foram beneficiados por uma estrutura coletiva extremamente sólida à frente da defesa.

A "La Roja" enfrentou apenas 10 finalizações no alvo durante toda a competição e sofreu apenas um gol.

Um domínio refletido nos números

Todos esses fatores ajudam a explicar a campanha vitoriosa da Espanha do outro lado do Atlântico. Mas ainda falta citar o principal ingrediente: sua identidade de jogo.

A "La Roja" controla as partidas como poucas seleções conseguem no cenário internacional. Mantém a posse de bola por longos períodos e transforma o adversário em um mero espectador da partida.

A equipe de Luis de la Fuente completou 4.945 passes na campanha do título, com 90% de precisão - o melhor índice de toda a Copa.

No total, teve 63,7% de posse de bola, a segunda maior média do torneio, atrás apenas da Turquia, que disputou cinco jogos a menos.

Sob todos os aspectos, a Espanha deu uma verdadeira aula de como controlar o ritmo das partidas e impor seu estilo de jogo ao longo da competição.

Princípios fundamentais e serenidade

Essa capacidade de dominar os espaços e fazer a bola circular, praticamente enraizada na identidade da seleção, permitiu que a Espanha neutralizasse o poderoso ataque da França na semifinal, limitando Kylian Mbappé e seus companheiros a poucas oportunidades.

Nos seis jogos anteriores, os "Les Bleus" haviam registrado média de 21,5 finalizações por partida. No Texas, porém, conseguiram apenas 10 e praticamente não criaram grandes chances.

Esse domínio também trouxe outra vantagem importante: quando recuperava a posse de bola, a França parecia receosa de perdê-la rapidamente e voltar a passar vários minutos correndo atrás da bola. Como consequência, a equipe se tornou mais cautelosa e previsível, facilitando ainda mais o trabalho da Espanha.

Cinco dias depois, veio a Argentina, com uma proposta completamente diferente. A Albiceleste apostava em um jogo mais intenso, físico e imprevisível.

Para enfrentar esse desafio, a Espanha reforçou os princípios que fazem parte de sua identidade desde que foram incorporados ao futebol do país na década de 1970, inspirados por Rinus Michels e pelo tricampeão do Ballon d'Or Johan Cruyff.

Sem se preocupar em entregar um espetáculo eletrizante para uma audiência de 1,8 bilhão de pessoas, a "La Roja" simplesmente manteve a posse de bola, trocando passes sem se deixar levar pelas 25 faltas cometidas ao longo da partida.

A Argentina terminou o jogo com apenas oito toques na área espanhola e 35% de posse de bola. Durante boa parte da final, restou à equipe marcar, fechar espaços e assistir à Espanha mover a bola de um lado para o outro com paciência e precisão.

Tudo isso lembra uma famosa frase atribuída a Xavi, várias vezes indicado ao Ballon d'Or e um jogador que entendia como poucos o valor de controlar uma partida por meio da posse de bola:

"Quem tem a bola é dono do jogo."

Foi exatamente isso que a "La Roja" fez ao longo dos oito jogos disputados nas Américas e, como consequência, conquistou o mundo.