O desafio chamado United
Casemiro está prestes a disputar sua última partida pelo Manchester United. O brasileiro de 34 anos se despede do clube neste domingo, diante do Brighton, encerrando uma passagem marcada por altos e baixos, críticas intensas e uma impressionante volta por cima.
Ele chegou ao United em 2022, após quase uma década no Real Madrid. Na Espanha, formou ao lado de Luka Modrić - vencedor do Ballon d’Or de 2018 - e Toni Kroos - cinco vezes indicado ao prêmio - um dos meio-campos mais dominantes da história recente do futebol. Pelos 'Blancos', conquistou três títulos de La Liga e cinco Liga dos Campeões, entre muitos outros troféus.
Ele foi contratado pelo então técnico do United, Erik ten Hag, em meados de 2022, depois de uma temporada extremamente decepcionante dos ‘Red Devils’, que registraram sua pior pontuação na era da Premier League e ficaram de fora da classificação para a Liga dos Campeões. Casemiro chegou como a resposta para um time que precisava urgentemente de liderança, organização e experiência.
Em Manchester, reencontrou dois ex-companheiros do Real Madrid: Raphaël Varane - indicado ao Ballon d’Or de 2018 - e Cristiano Ronaldo, cinco vezes vencedor do prêmio.
A primeira temporada na Inglaterra foi excelente. Forte na marcação, disciplinado taticamente e ainda decisivo no ataque, Casemiro tornou-se peça-chave da equipe e um dos protagonistas da conquista da Copa da Liga Inglesa - o primeiro título do United desde 2017. Foi dele, inclusive, o primeiro gol da final contra o Newcastle. Na Premier League, o clube terminou em terceiro lugar e garantiu vaga na Liga dos Campeões.
Quando o mundo duvidou
Mas o cenário mudou nos dois anos seguintes.
Entre lesões e problemas físicos, seu rendimento caiu e as críticas aumentaram. Em alguns momentos, vieram de forma particularmente dura.
Durante uma sequência ruim na temporada 2023-24, o comentarista e ex-zagueiro inglês Jamie Carragher fez uma declaração que repercutiu no mundo do futebol: "Sempre me lembro do ditado 'deixe o futebol antes que o futebol te deixe'. O futebol já o deixou. Nesse nível, ele precisa admitir que chegou ao limite e parar." (Sky Sports)
A fala rapidamente virou tema de debate entre torcedores ao redor do mundo.
A volta por cima
Felizmente, Casemiro não deu ouvidos ao conselho de Carragher.
Ignorou o ruído externo e continuou trabalhando para reencontrar o nível que sabia ser mais do que capaz de atingir. Como ele próprio resumiu: "Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Converse com o treinador sobre como você pode mudar. É isso que eu faço. Pergunto ao treinador: 'O que eu preciso fazer para jogar? Eu consigo jogar nesse time. Vou tentar.'" (Rio Ferdinand Presents)
A persistência deu resultado.
Sob o comando do novo técnico Michael Carrick, Casemiro viveu o que provavelmente será lembrado como sua melhor temporada no clube. Além da tradicional capacidade de marcação e leitura defensiva, passou a contribuir de forma decisiva no ataque. Em 35 partidas, marcou 9 gols - o maior número de uma única temporada em toda a sua carreira.
"Uma das maiores conquistas da minha carreira, sem dúvida, foi essa volta por cima." - Casemiro
O United também voltou a crescer, encaminhando uma campanha que termina com a equipe novamente classificada para a Liga dos Campeões.
Sobre a recuperação, o volante declarou recentemente: "Sempre quis jogar nesse clube, demonstrar nesse clube que eu era capaz, demonstrar para os fãs que eu sou um jogador da altura do clube. Isso sempre fui eu e sempre tentei demonstrar isso nesse clube. Então, uma das maiores conquistas da minha carreira, sem dúvida, foi essa volta por cima." (TNT Sports Brasil)
Com o desejo de encerrar a trajetória em alta, Casemiro anunciou que deixará o United ao fim da temporada. No último jogo em Old Trafford, recebeu uma grande ovação da torcida. Em quatro temporadas no clube, disputou 160 partidas, marcou 26 gols e participou de um ciclo que levou o United a cinco finais e dois títulos: a Copa da Liga Inglesa de 2022-23 e a Taça da Inglaterra de 2023-24.
No fim, provou que muitos críticos estavam errados.
"Acho que é legal ter experiência, porque você sabe lidar com as críticas, e sabe o que não escutar." - Casemiro
Ainda neste mês, o próprio Carragher publicou um artigo reconhecendo a mudança de cenário: ‘É preciso admitir que a insinuação de que Casemiro estava “acabado” no mais alto nível foi severa demais e prematura. [...] Ele merece crédito por ter mudado a percepção sobre sua passagem pelo United enquanto se prepara para se despedir.’ (The Telegraph)
Embora tenha considerado os comentários iniciais desrespeitosos, Casemiro preferiu focar no que construiu: deixa o Manchester United como um dos jogadores mais queridos da torcida em um período particularmente turbulento do clube, reforçando seu legado como um dos grandes volantes da era moderna.
Silenciar o ruído
Um fator fundamental para isso foi sua capacidade de filtrar grande parte das críticas que considera não-construtivas, baseadas em negatividade - algo especialmente presente na retórica acalorada das redes sociais. Nas suas próprias palavras: "Não tenho redes sociais no meu celular e não mexo em redes sociais, porque afinal todo mundo hoje dá opinião e todo mundo quer viralizar. Hoje em dia, todo mundo expressa, todo mundo é sábio, todo mundo é craque, todo mundo joga muito, todo mundo entende. Se ganhar hoje, é o melhor e se perder, é o pior. Acho que isso é o resumo de hoje. Saiba que muitas vezes não é assim. Muitas vezes não é assim. Acho que temos que saber avaliar, temos que saber o que está sendo feito de bom, o que está sendo feito de ruim. Mas hoje em dia, com rede social, com telefone, hoje todo mundo sabe tudo e ninguém não sabe nada. Você é o dono da razão em tudo. O bom de você chegar numa certa experiência é que você sabe se você está jogando bem, se você não está jogando bem, se foi apenas um jogo ou não, se o momento é bom… Porque ninguém é robô. Todo mundo pode ter altos e baixos. Mas acho que é legal ter experiência, porque você sabe lidar com as críticas, e sabe o que não escutar." (TNT Sports Brasil)
Em um momento em que saúde mental ocupa um espaço cada vez maior no debate sobre futebol, Casemiro entende a importância de preservar a própria paz interior e limitar a exposição ao ambiente online - onde as críticas podem ir do razoável ao extremo.
Para ele, maturidade e experiência são fundamentais para “silenciar o ruído”.
A próxima geração
O impacto, no entanto, costuma ser ainda maior sobre os mais jovens.
No início deste ano, Endrick - atacante brasileiro de 19 anos apontado por muitos como um dos grandes nomes do futuro da seleção - falou sobre as dificuldades que enfrentou: "Quando comecei [a jogar], eu lidava muito mal com as redes sociais e as críticas. Saía do campo e ia direto para o Twitter (X), para as redes sociais, para ver o que as pessoas estavam dizendo sobre mim. Eu queria inflar meu ego. Mas isso não é bom. Graças a Deus, essa fase acabou. Quando a partida termina, eu me mantenho calmo e me concentro na minha recuperação. Não me importo mais com essas críticas." (The Guardian)
Mesmo tendo encontrado maior tranquilidade ao evitar a exposição excessiva às redes sociais, o jovem ainda afirmou: "O futebol não é um lugar agradável. É um ambiente muito difícil." (The Guardian)
A pressão da Amarelinha
Tanto Endrick quanto Casemiro foram convocados por Carlo Ancelotti para representar a seleção brasileira na Copa do Mundo.
A pressão sobre o Brasil no torneio é única. A cada quatro anos, expectativas, cobranças e escrutínio reaparecem - um peso que muitos apontam como um dos fatores por trás do jejum que dura desde 2002. Casemiro explica: "Não há maior pressão do que jogar uma Copa do Mundo pela seleção brasileira. Não é jogar pelo Real Madrid, não é jogar pelo United. Quando se trata de seleção brasileira, a pressão é muito maior. Porque no Real Madrid e no United, ano que vem você tem outra oportunidade. Na seleção é daqui a 4 anos." (TNT Sports Brasil)
Aos 34 anos, ele será um dos líderes da Amarelinha. Ao lado dele estarão jovens talentos prontos para viver o maior palco do futebol - casos de Endrick e também de Rayan, atacante do Bournemouth, de apenas 19 anos.
Casemiro reconhece que combater os efeitos negativos das redes sociais e das críticas online pode ser um desafio maior para esses jogadores mais jovens e menos experientes. Seu conselho é simples: "Se eu pudesse dar a minha opinião a um jovem, a um cara que vai jogar pela primeira vez uma Copa do Mundo, eu diria que não olhar redes sociais e não olhar internet seria perfeito, seria o ideal. Mas é impossível. A gente tem que ser realista e a gente tem que ser franco com tudo. E respeito a opinião de quem usa. Sou um cara super tranquilo com isso. Mas eu não tenho no meu celular. Celular para mim tem muitas mais coisas a perder do que ganhar, com essas redes sociais. Mas respeito a opinião de cada um. Eu uso meu celular só para falar com a minha família e com os meus entes queridos." (TNT Sports Brasil)
O último capítulo - por enquanto
Ainda não se sabe qual será o próximo destino de Casemiro, mas certamente não faltarão interessados em contar com sua experiência, liderança e determinação - as mesmas qualidades que ele levará para sua terceira Copa do Mundo, na tentativa de guiar o Brasil ao primeiro título no torneio em mais de 20 anos.
Para isso, contará não apenas com as armas dentro de campo - intensidade, imposição física e poder de decisão -, mas também com as que construiu fora dele: resiliência, foco e força mental.
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