Entre gigantes e surpresas
Ao assistir à Copa do Mundo de 2026, muita gente vai estar de olho nas seleções mais fortes do torneio e nas histórias que elas prometem escrever.
Seja o Brasil em busca do tão sonhado “hexa”, a Argentina tentando manter vivo o legado histórico de Lionel Messi, a França querendo confirmar o favoritismo que carrega, Portugal sonhando em coroar a carreira lendária de Cristiano Ronaldo, a Inglaterra tentando conquistar a segunda Copa 60 anos depois da primeira ou a Holanda tentando finalmente levantar um troféu que já escapou tantas vezes… todas essas histórias são, sem dúvida, fascinantes e merecem atenção.
Mas não são necessariamente mais emocionantes do que as histórias que podem surgir de seleções bem menos prováveis.
Uma delas é a de Cabo Verde.
Cabo Verde entra em cena
A pequena nação na costa ocidental da África nunca tinha disputado uma Copa do Mundo. Ex-colônia portuguesa, o arquipélago só conquistou sua independência em 1975, e sua primeira partida oficial de futebol veio apenas três anos depois. Em 1982, foi fundada a Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), que só se filiou à FIFA quatro anos mais tarde.
A primeira vez que Cabo Verde enfrentou uma seleção fora da África foi em 2002 - justamente no ano em que outra ex-colônia portuguesa, o Brasil, conquistava o pentacampeonato mundial.
Ou seja, a história do país com o futebol de alto nível ainda é recente, assim como sua própria trajetória como nação independente.
Cabo Verde passou cerca de cinco séculos sob domínio colonial e só se tornou independente há pouco mais de 50 anos. E foi justamente no ano em que celebrou o cinquentenário da independência que conseguiu a classificação para a Copa do Mundo.
Esse feito não pode ser subestimado. Para um país tão pequeno, com recursos limitados e sem o mesmo investimento que grandes potências do futebol, a ascensão de Cabo Verde é simplesmente extraordinária.
Crescimento na África
Na sua primeira participação na Copa Africana das Nações (CAN), em 2013, os “Tubarões Azuis” chegaram até as quartas de final. No caminho, venceram Angola, arrancaram empates contra seleções tradicionais do continente como Marrocos e África do Sul e ainda fizeram jogo duro contra Gana, mas acabaram eliminados pelos “Black Stars".
Uma década depois, em 2023, repetiram o feito - novamente chegando às quartas, desta vez com ainda mais impacto. Bateram Gana, empataram com o Egito e venceram Moçambique e Mauritânia, antes de cair mais uma vez na mesma fase.
Em outubro do ano passado, veio a conquista mais importante: a classificação para a Copa do Mundo. Cabo Verde não só avançou, como liderou um grupo duríssimo, com adversários de peso como Camarões - a seleção africana com mais participações em Copas - somando oito vitórias em dez jogos.
Depois de confirmar a vaga na capital Praia, o experiente técnico Bubista resumiu bem o espírito da equipe: “A união entre pessoas com diferentes mentalidades e modos de vida só pode ser alcançada pelo respeito à singularidade de cada jogador.” (The Guardian)
Bubista e um elenco de muitos perfis
Ex-jogador da seleção cabo-verdiana, Bubista - Pedro Leitão Brito de nascimento - chega à Copa com um elenco tão diverso quanto interessante entre os 26 convocados.
Tem nomes mais experientes, como Garry Rodrigues; apostas ofensivas de alto impacto, como Dailon Livramento; atacantes técnicos como Willy Semedo; e meio-campistas de muita entrega, como Deroy Duarte… uma lista longa, variada e cheia de perfis diferentes.
Alguns nomes, porém, chamam ainda mais atenção.
É o caso do ponta de 36 anos Ryan Mendes, capitão e maior artilheiro da história de Cabo Verde. Ele lidera os Tubarões Azuis rumo à primeira Copa do Mundo, 16 anos depois da sua estreia. Com 96 jogos pela seleção, ainda pode se tornar o primeiro a atingir a marca de 100 partidas pela seleção durante o torneio.
Outro veterano é o goleiro Vozinha, de 40 anos. Ele quase se despediu da seleção depois da dolorosa eliminação nos pênaltis para a África do Sul na CAN de 2023, mas foi convencido a continuar pelos próprios companheiros. Hoje, é uma das lideranças mais respeitadas do grupo.
Na outra ponta, tem jogadores vivendo o auge, como o meia Kevin Pina, de 29 anos, cujas atuações de destaque ajudaram o Krasnodar, da Rússia, a conquistar seu primeiro título nacional no ano passado.
E também tem jovens em ascensão, como o zagueiro Logan Costa, de 25 anos. Defensor no Villarreal, ele chega à Copa mesmo sem ter atuado nesta temporada, depois de sofrer uma grave lesão no LCA no ano passado, mas segue como peça importante para o futuro da seleção.
Essa mistura de experiências, trajetórias e perfis é uma das marcas do elenco de Cabo Verde - e é justamente isso que Bubista, eleito Melhor Treinador da CAF no ano passado, tanto valoriza e destaca.
Identidade e união dentro de campo
Falando em diversidade, a seleção cabo-verdiana também chama atenção pela origem dos seus jogadores: os 26 convocados nasceram em 13 cidades diferentes, espalhadas por seis países e três continentes.
Isso, em grande parte, reflete a enorme diáspora de Cabo Verde - uma das mais altas do mundo em proporção à população. Estima-se que hoje existam quase o dobro de cabo-verdianos vivendo fora do país em relação aos que vivem no próprio arquipélago.
A maior comunidade está nos Estados Unidos, com cerca de 500 mil pessoas, que certamente vão aproveitar a chance de ver sua pequena nação enfrentar algumas das maiores potências do futebol mundial.
Apesar de os Estados Unidos concentrarem a maior parte da diáspora, a Holanda também tem um papel importante. Seis jogadores do elenco nasceram em Roterdã, um dos principais centros dessa comunidade. A cidade, apelidada pelos cabo-verdianos de “11ª ilha”, abriga uma grande população emigrante desde os anos 1950, quando muitos passaram a chegar para trabalhar em navios locais durante o período da luta pela independência de Portugal.
É dessa rede global que também surgem histórias curiosas, como a do zagueiro Pico, de 33 anos, nascido na Irlanda. Ele recebeu o convite para defender Cabo Verde por conta da ligação familiar com o país, mas inicialmente ignorou a mensagem no LinkedIn, acreditando ser spam. Só depois, ao receber o contato novamente em inglês, traduziu a mensagem e respondeu rapidamente para aceitar o chamado.
Por falar em idioma, esse é um dos poucos pontos em que Bubista não abre espaço para variação: espera que os jogadores da seleção falem crioulo cabo-verdiano em todos os momentos, reforçando o orgulho nacional e as raízes do país. Em suas próprias palavras: “Às vezes os meninos tentam falar outros idiomas entre si, mas eu não permito, para manter nossa identidade cabo-verdiana intacta.” (Financial Times)
Futebol como símbolo nacional
Ter um idioma em comum ajuda a aproximar o grupo - e também a conectá-lo mais diretamente com a população local. A própria seleção, nesse sentido, funciona como um símbolo de união nacional. Como disse o presidente José Maria Neves: "Temos democracia, temos pluralismo, mas muitas vezes há uma fragmentação. A seleção nos une. Une mulheres, homens, jovens, crianças. Para um pequeno país como o nosso, é gigantesco.” (GE)
Esse papel de união ganha ainda mais importância em um país formado por um arquipélago de dez ilhas, naturalmente mais fragmentado pela própria geografia. E ele chega também num momento delicado da economia, que por muito tempo dependeu fortemente do turismo para crescer. Com a pandemia, em 2020, o número de visitantes caiu drasticamente, e a recuperação tem sido gradual desde então. Nesse contexto, a classificação para a Copa surge como um momento importante de união e otimismo nacional, junto do anúncio de que Cabo Verde será a Capital Africana da Cultura em 2028.
Cabo Verde no mundo lusófono
A decisão de Bubista de priorizar o uso do crioulo dentro do grupo está diretamente ligada a esse esforço de fortalecer o orgulho nacional. Ainda assim, o português segue sendo o idioma oficial do país, amplamente usado na mídia, na educação e nos serviços públicos.
Entre os nove países de língua portuguesa no mundo, Cabo Verde será o quarto a disputar uma Copa do Mundo. O Brasil é o líder, com presença em todas as 22 edições e cinco títulos conquistados. Portugal aparece logo atrás, com oito participações e o terceiro lugar em 1966. Angola também já esteve no torneio, em 2006, quando foi eliminada ainda na fase de grupos.
Os demais países lusófonos que ainda não conseguiram chegar à Copa do Mundo são Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.
Um grupo pesado na estreia
Não dá para negar que o caminho de Cabo Verde será bastante difícil.
O país, terceiro menor já classificado para uma Copa do Mundo - atrás apenas de Curaçao, também nesta edição, e da Islândia em 2018 -, e um dos quatro estreantes do torneio (ao lado de Curaçao, Jordânia e Uzbequistão), chega como 69º colocado no ranking da FIFA e caiu em um dos grupos mais complicados da competição.
A estreia já pode ser o maior desafio: um confronto contra a Espanha no dia 15 de junho. Atual segunda colocada no ranking da FIFA e campeã da Euro 2024, a seleção espanhola está entre as grandes favoritas ao título e conta com vários nomes indicados ao Ballon d’Or, como Pedri, Fabián Ruiz e Lamine Yamal, além de Rodri, vencedor de 2024. A equipe ainda carrega no currículo o título mundial de 2010.
Depois, no dia 21, enfrentam o Uruguai, bicampeão do mundo. Os sul-americanos, atualmente em 16º no ranking da FIFA, também contam com jogadores indicados ao Ballon d’Or, como Darwin Núñez e Federico Valverde.
O duelo mais acessível, pelo menos no papel, vem no dia 26, contra a Arábia Saudita, atualmente 60ª no ranking da FIFA - apenas sete posições acima dos cabo-verdianos.
A força dos “caça-gigantes”
A expectativa de muitos é de que Cabo Verde tenha poucas chances de avançar da fase de grupos, mas subestimar essa seleção já se mostrou um erro no passado.
Cada vez mais vistos como “caça-gigantes”, os cabo-verdianos já mostraram que sabem surpreender. Em 2015, venceram Portugal por 2 a 0 em um amistoso histórico, apenas um ano antes da conquista da Eurocopa pelos portugueses. Mais recentemente, às vésperas do torneio, bateram a Sérvia por 3 a 0, seleção acostumada a disputar Copas.
No fim das contas, o simples fato de Cabo Verde ter se classificado para esta Copa, superando potências africanas como Camarões e Nigéria, já diz muito sobre a dimensão do que essa equipe representa.
Como o atacante Willy Semedo diz: "Queremos ir o mais longe possível. É absolutamente um objetivo realista chegarmos à fase eliminatória. Já demonstramos muitas vezes que temos nível para competir contra boas equipes, jogando um bom futebol. Não vamos lá apenas para passar férias. Vamos à Copa do Mundo para fazer algo especial pela nossa nação, para deixá-los orgulhosos de nós e para nos classificarmos para a fase eliminatória com certeza". (FIFA)
Um momento que já marca história
Sem dúvida, será uma missão difícil para os Tubarões Azuis. Mas esse grupo não é estranho a lutar contra as probabilidades, dentro e fora de campo. Uma seleção pequena, mas resiliente, com jogadores espalhados pelo mundo, Cabo Verde chega à Copa de 2026 não apenas para viver o momento, mas para tentar ir o mais longe possível e marcar sua história.
No plano pessoal, o técnico Bubista sabe bem o que é superar obstáculos. Criado pela mãe na ilha da Boa Vista, ao lado dos nove irmãos, ele cresceu numa realidade humilde - o pai trabalhava como operador de elevador em meio período e pastor de ovelhas em outro. Na ilha, tinha apenas uma televisão, onde ele aproveitava para ver futebol sempre que podia. Quando não dava, improvisava: jogava na rua com bolas feitas de meias.
Apesar das dificuldades, conseguiu transformar esse contexto em combustível para o sonho de ser jogador profissional. Passou por clubes na Espanha, em Portugal e em Angola, e também defendeu a seleção de Cabo Verde por mais de uma década.
Ele já está há mais de seis anos no comando da equipe e agora se prepara para levar o grupo ao maior palco do futebol mundial.
A sua trajetória é, em si, um retrato do que o futebol pode proporcionar: a ideia de que nenhuma barreira é grande demais e de que o improvável também pode acontecer.
Como ele mesmo disse: “Somos um país pequeno e servimos de exemplo: não importa o tamanho do país, é possível alcançar algo grande como estar numa Copa do Mundo.” (FIFA)
E agora?
Agora, quase 150 anos após a abolição da escravidão em Cabo Verde e pouco mais de 50 anos depois da independência, o país estreia numa Copa do Mundo pela primeira vez, pronto para mostrar ao mundo sua garra, talento e determinação.
Até onde essa história pode ir?
Será que Cabo Verde vai voltar a desafiar o impossível?
Em breve, saberemos.