Uma lenda dos gramados
Pouca gente duvida de que Marta seja a maior jogadora de futebol feminino de todos os tempos. Já no fim de uma carreira histórica, a brasileira de 40 anos acumula números que falam por si: seis vezes eleita Melhor Jogadora do Mundo pela FIFA, dona de inúmeros títulos por clubes e de uma coleção impressionante de prêmios individuais. É também a maior artilheira da história da seleção brasileira - tanto entre homens quanto mulheres - e da história da Copa do Mundo - de novo, sem distinção. É um nome que virou lenda e que ajudou a elevar o futebol feminino a um novo patamar de visibilidade e respeito no mundo inteiro.
Mais do que isso, indicada três vezes ao Ballon d'Or, ela se tornou um dos símbolos mais fortes do amor profundo e inabalável do Brasil pelo futebol. Desde a sua estreia internacional, há mais de vinte anos, Marta esteve no centro de conquistas e campanhas históricas, deixando uma marca que atravessa gerações.
Mas, por mais que represente tão bem o destaque do Brasil, a craque não é só um ícone nacional por aqui. Ela também se tornou um símbolo na Suécia.
Isso mesmo - na Suécia.
E não é um caso isolado.
Na verdade, ela não foi a primeira, nem seria a última jogadora brasileira a escrever seu nome como pioneira do futebol feminino nos países nórdicos da Europa.
Para entender isso, vale olhar um pouco para trás.
Antes da ponte
No começo dos anos 2000, o futebol feminino ainda ocupava um espaço frágil na sociedade brasileira.
O esporte chegou a ser proibido por 40 anos, entre 1941 e 1979, com a justificativa de que não era compatível com a “natureza das mulheres”. Só em 1983 passou a ser oficialmente reconhecido e regulamentado, e a seleção brasileira só foi criada em 1986. A partir daí, o cenário seguiu marcado por pouca estrutura, organização instável e uma falta de investimento real.
Em 1993, a CBF chegou a organizar o Campeonato Brasileiro Feminino, mas a competição perdeu força poucos anos depois, e o país voltou a viver um longo período sem um torneio nacional realmente consolidado ao longo dos anos 2000. O formato atual do Brasileirão Feminino só surgiu em 2013, com a segunda divisão chegando apenas em 2016. Em suma, o futebol feminino de liga no Brasil, como conhecemos hoje, tem pouco mais de uma década.
O norte em ascensão
Na Escandinávia, a história foi bem diferente. A Dinamarca já tinha competições femininas desde o início dos anos 60, formalizadas em 1975. Na Suécia, começaram a surgir ligas locais em 1968 que mais tarde deram origem à Damallsvenskan, oficializada em 1988 - a primeira liga feminina a se profissionalizar. A Finlândia e a Islândia estruturaram suas competições nos anos 70, enquanto a Noruega oficializou a Toppserien em 1987.
Longe de ser marginalizado, o futebol feminino foi acolhido e valorizado na região - um enorme contraste em relação ao que acontecia no Brasil e em muitos outros países. Não é por acaso que essa mentalidade tenha ajudado a Escandinávia a se tornar uma das primeiras potências da modalidade.
A Suécia conquistou a primeira edição do Campeonato Europeu Feminino, em 1984. Já na primeira Copa do Mundo feminina, em 1991, os Estados Unidos ficaram com o título, mas a Noruega terminou em segundo e a Suécia em terceiro. Pouco depois, em 1995, as norueguesas deram o troco e levaram o título - justamente numa edição disputada em solo sueco.
O talento cruza os mares
Enquanto isso, já no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, mesmo com um cenário ainda cheio de limitações no Brasil, foi ficando impossível ignorar o talento que tinha no país. A criatividade, a técnica e a alegria de jogar seguiam presentes nas jogadoras brasileiras.
E a Escandinávia logo percebeu isso.
Na Copa do Mundo de 1995, o Brasil venceu o time forte da Suécia na fase de grupos. Em 1996, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, Pretinha terminou como uma das artilheiras do torneio, ao lado das norueguesas Ann Kristin Aarønes e Linda Medalen. Em 1999, o Brasil conquistou a medalha de bronze ao vencer justamente a Noruega - então campeã - na disputa pelo terceiro lugar, com Sissi terminando como artilheira do torneio. O Brasil voltaria a vencer a Noruega mais uma vez na Copa do Mundo Feminina de 2003.
Segundo a jornalista esportivo Mats Brâstedt, o torneio foi assistido por cerca de metade da população na Suécia. (BBC) Todos assistindo futebol feminino. Todos assistindo à Escandinávia. Todos assistindo o Brasil.
Rumo ao norte
Aos poucos, um movimento começou a tomar forma.
As jogadoras brasileiras passaram a tentar a sorte na Escandinávia.
E fazia todo sentido.
Para elas, o Brasil oferecia poucas oportunidades, poucos clubes, investimento baixo e muita instabilidade. Por outro lado, no norte da Europa, encontravam estrutura, segurança profissional, melhores condições financeiras e um ambiente muito mais sólido para crescer.
Para os clubes escandinavos, era uma oportunidade de ouro: trazer talento de elite, muitas vezes ainda em ascensão, para fortalecer equipes e manter o nível competitivo das ligas.
Todo mundo saía ganhando.
E foi assim que tudo começou.
2004: o ponto de virada
Tudo começou com uma série de amistosos não oficiais na Suécia em 2004, em que a seleção brasileira enfrentou algumas das equipes femininas mais fortes do futebol nórdico. Nessas partidas, o Brasil atropelou clubes como o Umeå Södra FF e o Trondheims-Ørn. A única equipe que não conseguiu vencer foi o time sueco Umeå IK, com um empate. Para muitas jogadoras e membros da comissão técnica, esses jogos podem ser vistos como um primeiro contato entre dois extremos do mundo do futebol.
Não é coincidência que, depois disso, várias jogadoras brasileiras - que tanto impressionaram a Escandinávia quanto ficaram impressionadas com ela - tenham se mudado para lá.
Daniela chegou ao Kopparbergs/Göteborg FC em 2004 depois de chamar atenção no Brasil e nos Estados Unidos, mas acabou tendo a passagem freada por lesões que limitaram suas chances e quebraram o ritmo, fazendo ela voltar à América do Norte com aquela sensação de algo que não chegou a se completar. Já Formiga chegou ao Malmö FF Dam no mesmo período como uma referência do futebol brasileiro, embalada pela medalha de prata nas Olimpíadas de 2004. Ela ajudou a levar o clube ao vice em 2005 antes de retornar ao Brasil, após uma passagem curta mas consistente.
E então veio Marta.
Marta: quando tudo mudou
Se a experiência na Suécia não foi das melhores para Daniela e apenas razoável para Formiga, para Marta a história foi completamente diferente.
Depois de se destacar pelo Vasco da Gama e o Santa Cruz no começo dos anos 2000, a alagoana decidiu se arriscar na Europa e assinou com o Umeå IK, também em 2004.
O que veio depois entrou para a história.
Logo na sua primeira temporada, Marta conquistou a UEFA Women’s Cup, ajudando o Umeå a atropelar o Frankfurt por 8 a 0 no agregado - sendo que 3 desses gols foram dela. Na liga, ela também brilhou: dividiu a artilharia com a companheira Laura Kalmari, ambas com 22 gols.
Depois disso, virou rotina.
Além da Women’s Cup, Marta ganhou 4 títulos da Damallsvenskan e uma Svenska Cupen com o Umeå. Foi artilheira da liga em 2004, 2005 e 2008. Foi também nesse período que conquistou três dos seus seis prêmios de Melhor Jogadora do Mundo pela FIFA. A história dela ficou totalmente entrelaçada com a do clube - impossível separar uma da outra.
Entre títulos e recomeços
A lenda brasileira deixou o Umeå em 2009 e atuou tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil antes de retornar à Suécia em 2012, desta vez para defender o Tyresö FF. Durante sua apresentação no clube, ela descreveu a Suécia como sua “segunda casa”. (BBC)
Apesar de ter recebido grandes propostas de outros times ao redor do mundo, como da França, Alemanha e Coreia do Sul, Marta optou por voltar ao país que a tinha acolhido de braços abertos por tantos anos. Seu agente, Fabiano Farah, explicou: “Prevaleceu, sem dúvida, o fato de ela voltar para a Suécia. Ela tem um carinho muito grande pelo país, além de ser a liga mais competitiva do mundo.” (UOL)
Mas, em uma dessas reviravoltas do destino, o clube entrou em colapso financeiro, deixando Marta livre no mercado. Mesmo com interesse de várias equipes, escolheu seguir na Suécia, assinando com o então campeão da liga, o FC Rosengård.
E Marta seguiu fazendo o que sempre fez de melhor: decidindo, brilhando e vencendo.
No Rosengård, não foi diferente - em quatro temporadas, ajudou o clube a conquistar dois títulos da liga.
Em 2017, sua trajetória ganhou mais um capítulo simbólico: a cidadania sueca, mais de uma década após sua chegada à Europa.
No fim, mais do que títulos, ficou o impacto. Marta não só dominou o futebol na Escandinávia - ela ajudou a criar uma ponte entre o Brasil e a Suécia que outras jogadoras puderam atravessar depois dela.
Laços que atravessam fronteiras
No ano seguinte à chegada de Marta à Suécia pela primeira vez, Elaine se mudou para o exterior para se juntar à compatriota no Umeå. Versátil, podendo atuar no meio ou na defesa, ela já vinha de uma carreira consistente no Brasil e encontrou na Suécia um ambiente onde seu jogo se encaixou rápido.
A trajetória dela acabou se cruzando com a de Marta por boa parte do caminho. Ela jogou ao lado da craque brasileira no Umeå até 2009 e, em seguida, deixou o país por um breve período, antes de retornar em 2010 para defender o Tyresö.
“Daqui (da Suécia) eu não saio para me aventurar em outro país. A estrutura é coisa de outro mundo." - Elaine
Em 2013, foi emprestada ao Älta IF e acabou ficando em definitivo após um bom desempenho. Depois, ainda passou por Lindhagen FF e Karlbergs BK antes de encerrar a carreira alguns anos depois, seguindo no futebol como auxiliar técnica no Djurgårdens IF e treinadora de base no Enskede IK.
Depois de tanto tempo na Suécia, Elaine acabou se tornando mais um símbolo dessas jogadoras que atravessaram o mundo de sul a norte e construíram carreiras de sucesso nesse caminho.
Falando sobre isso em 2012, ela resumiu bem por que a decisão fez tanto sentido: “Daqui (da Suécia) eu não saio para me aventurar em outro país. A estrutura é coisa de outro mundo. Sempre indicamos jogadoras brasileiras, para encher a liga sueca, ainda que eu preferisse que fosse assim no Brasil.” (BBC)
A consistência como legado
Já em 2012, enquanto Marta chegava ao Tyresö, a paulistana Fernandinha assinava com o Assi IF, da segunda divisão sueca, a Elitettan. A meio-campista acabou ficando sete temporadas seguidas no clube. Virou queridinha da torcida e marcou mais de 100 gols, sendo eleita a Melhor Meio-Campista da Elitettan em 2018.
No fim do ano, foi para o Piteå IF e, já na primeira divisão em 2019, terminou entre as principais assistentes da liga. Em 2021, no Vittsjö GIK, manteve o alto nível e, na sua última temporada na Suécia, ainda terminou entre as artilheiras do campeonato.
Crescimento em conjunto
Debinha e Rosana foram mais dois nomes brasileiros que deixaram uma marca profunda no futebol escandinavo. As duas já tinham jogado juntas no Centro Olímpico, em São Paulo, e levaram essa parceria para a Europa ao assinarem com o Avaldsnes IL, da Noruega, em 2013. A escolha acabou se mostrando quase profética.
A adaptação à Toppserien foi imediata. As duas se tornaram peças-chave da equipe, se encaixando naturalmente no estilo do clube. Rosana assumiu rapidamente a braçadeira de capitã, liderando dentro e fora de campo. Já Debinha viveu uma ascensão ainda mais marcante, e em 2014 terminou a temporada como artilheira da liga. Anos depois, esse crescimento continuaria a ser reconhecido, culminando na sua primeira indicação ao Ballon d'Or, em 2023.
Juntas, elas reforçaram mais uma vez que o talento brasileiro vai muito além do brilho individual - envolve também adaptação, inteligência e impacto coletivo. Elas acabaram se tornando dois dos maiores exemplos de sucesso de brasileiras na Noruega.
O ciclo brasileiro no Avaldsnes
As duas deixaram o Avaldsnes em 2016, mas o seu impacto foi tão forte que o clube seguiu apostando em brasileiras nos anos seguintes - como Andréia Rosa em 2013, Letícia Santos e Luana em 2015, Bruna Benites em 2016, Daiane Limeira e Francielle em 2017, e Gi Santos em 2022.
Esse ciclo acabou virando um dos períodos mais fortes da história do clube desde a sua fundação em 1989. Entre 2015 e 2017, o Avaldsnes emendou três vice-campeonatos seguidos na liga e, no meio disso, conquistou a Copa da Noruega feminina - o primeiro grande título da sua história. Naquela temporada, a brasileira Luana ainda foi eleita Jogadora do Ano do clube, fechando um ciclo de crescimento coletivo que marcou época.
E essas conquistas não ficaram no passado.
Novas protagonistas, mesmo padrão
Em 2025, a promissora brasileira Helena Sampaio chegou ao BK Häcken FF, na Suécia, depois de se destacar no futebol universitário dos Estados Unidos, tornando-se a primeira brasileira da história do clube. E a chegada não poderia ter sido mais decisiva. Suas atuações mudaram o ritmo da equipe e ajudaram o Häcken a, enfim, quebrar o ciclo de frustrações e conquistar a Damallsvenskan pela primeira vez, após quatro vice-campeonatos seguidos - como se uma nova fase tivesse finalmente encontrado seu ponto de virada.
Jogando com eficiência e brilho, Sampaio virou presença constante nos momentos grandes, incluindo um hat-trick de impacto na Women’s Europa Cup contra o GKS Katowice, que só reforçou a sensação de que ela tinha chegado para mudar tudo.
Um fio entre dois mundos
O futebol é muito mais do que apenas um esporte - isso já deveria estar claro para todos nós. Ele é uma força poderosa, capaz de unir comunidades e conectar pessoas ao redor do mundo.
No século XXI, o crescimento mundial do futebol feminino criou um fio condutor inesperado atravessando o Atlântico - uma ponte entre o calor intenso do Brasil e o frio rigoroso da Escandinávia. Algumas das jogadoras mais queridas do esporte fizeram esse caminho rumo ao norte, passando a jogar em algumas das ligas mais ricas e competitivas do mundo.
Com elas, levaram talento, coragem e uma ética de trabalho admirável. Mas nunca deixaram suas raízes para trás - continuam jogando com a mesma técnica, fluidez e paixão que sempre marcaram o futebol brasileiro. Em troca, o jogo só evoluiu no norte da Europa, virando um encontro bonito entre culturas e identidades esportivas tão diferentes, mas que se completam.
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