O quinto obstáculo rumo ao hexa
No domingo, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o Brasil enfrenta a Noruega em busca de uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026.
O duelo promete ser desafiador para os dois lados.
Para a Noruega, será a missão de encarar a seleção pentacampeã do mundo, atualmente quinta colocada no ranking da FIFA.
Já para o Brasil, apesar dos noruegueses ocuparem apenas a 21ª posição do ranking e nunca terem conquistado uma Copa do Mundo, existe um retrospecto que chama atenção: a Noruega jamais perdeu para a Seleção Brasileira. É, até hoje, a única seleção do mundo que pode dizer isso.
Às vésperas desse confronto, vale relembrar os encontros anteriores entre as duas equipes e entender como dribladores sul-americanos e gigantes escandinavos chegam para mais esse capítulo da rivalidade.
O primeiro capítulo: Oslo, 1988
O primeiro duelo entre Brasil e Noruega aconteceu há quase 40 anos, em 28 de julho de 1988.
Na época, a Noruega ainda era vista por muitos como uma seleção de menor expressão. Tinha disputado apenas uma Copa do Mundo, 50 anos antes, e seu maior feito no futebol masculino era a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1936.
O Brasil, por outro lado, já era sinônimo de futebol. A seleção era tricampeã mundial, com os títulos de 1958, 1962 e 1970, enquanto os clubes brasileiros também acumulavam prestígio internacional.
De olho nos Jogos Olímpicos de Seul, o técnico Carlos Alberto Silva queria formar um elenco forte para buscar a medalha de ouro. Para chegar ao torneio com ritmo e confiança, a Seleção marcou uma série de amistosos preparatórios - entre eles, o primeiro confronto da história contra a Noruega, disputado no Ullevaal Stadion, em Oslo.
Apesar da Amarelinha contar com um grupo repleto de jovens promessas, como o goleiro Cláudio Taffarel e o atacante Romário, foram os donos da casa que saíram na frente. Logo no início do segundo tempo, o atacante Jan Åge Fjørtoft, de apenas 21 anos, abriu o placar para os escandinavos.
Aos 36 minutos do segundo tempo, Edmar, atacante do Corinthians e um dos jogadores mais experientes da equipe brasileira, deixou tudo igual depois de aproveitar uma cabeçada de Ricardo Gomes. Mas os então tricampeões do mundo não conseguiram a virada, e a partida terminou empatada em 1 a 1.
Na época, o resultado foi tratado apenas como um tropeço normal no início de um novo ciclo da Seleção.
Com o passar dos anos, porém, ficou claro que aquele empate marcava o começo de uma tendência que se repetiria e se consolidaria ao longo da história do confronto entre Brasil e Noruega.
A noite da “retranca viking”: Oslo, 1997
Quase dez anos depois, em 30 de maio de 1997, Brasil e Noruega voltaram a se enfrentar, novamente no Ullevaal Stadion, em Oslo.
O amistoso servia como preparação para a Copa do Mundo de 1998, na França, e também fazia parte das celebrações do Dia Mundial Sem Tabaco. A expectativa era de uma vitória tranquila do Brasil - talvez até uma goleada.
Afinal, a Seleção já era tetracampeã mundial e contava com um elenco recheado de estrelas. Alguns nomes do primeiro confronto, como Taffarel e Romário, agora eram ídolos consagrados, ao lado de craques como Roberto Carlos, Cafu, Leonardo, Dunga, Mauro Silva, Djalminha e Ronaldo, que conquistaria seu primeiro Ballon d'Or meses depois.
A Amarelinha chegou a Oslo embalada por uma sequência de quase três anos e meio sem derrotas. A última tinha sido diante da Alemanha, em novembro de 1993.
Sob o comando de Mário Zagallo, técnico campeão do mundo em 1970, o Brasil ainda tinha outro motivo para confiar em um bom resultado: a Noruega não contava com um de seus principais jogadores, o atacante do Manchester United Ole Gunnar Solskjær, cortado por lesão.
Mas toda essa confiança foi abalada logo no início da partida. A Noruega abriu o placar quando Frank Strandli passou por Célio Silva e encontrou Petter Rudi, atacante do Sheffield Wednesday, livre para empurrar a bola para as redes.
O lance resumiu bem a atuação defensiva brasileira naquela noite: uma sequência de falhas.
Menos de dez minutos depois, Øyvind Leonhardsen recebeu um cruzamento sem marcação dentro da área e passou para Tore André Flo, atacante do Chelsea, ampliar o placar. Nem Célio Silva, com 1,78 m, nem Márcio Santos, de 1,87 m, conseguiram conter o centroavante norueguês, que tinha 1,92 m.
Pouco depois, Djalminha descontou para o Brasil com um belo chute de fora da área, coroando uma jogada individual brilhante de Romário. A reação, porém, durou pouco. André Flo voltou a aproveitar mais erros da defesa brasileira para marcar o terceiro gol da Noruega.
No segundo tempo, Romário protagonizou outra grande jogada que terminou em mais um gol brasileiro. Mas, novamente, foi insuficiente. Aos 31 minutos do segundo tempo, a defesa da Amarelinha voltou a falhar e deixou Egil Østenstad completamente livre na área para fechar o placar em 4 a 2.
Antes da partida, Zagallo tinha criticado a chamada "retranca viking" do técnico Egil Olsen, defendendo um jogo mais aberto e ofensivo.
No fim, porém, o plano dos noruegueses funcionou perfeitamente.
A equipe manteve sua estrutura no 4-5-1 durante praticamente toda a partida, apostando na criatividade de Erik Mykland e em bolas levantadas na área para explorar a força física de seus atacantes.
E, ao contrário do que Zagallo temia, o jogo passou longe de ser sem emoção: foram seis gols ao todo.
A Seleção Brasileira não sofria quatro gols em uma única partida desde a derrota por 4 a 0 para a Dinamarca, em junho de 1989.
Depois do jogo, embora também tenha reclamado do frio e das más condições do gramado, Zagallo reconheceu a superioridade dos donos da casa, admitindo: "O Brasil esteve muito desorganizado." (Folha de São Paulo)
A virada na Copa: Marselha, 1998
Por coincidência, o próximo encontro entre Brasil e Noruega aconteceu apenas um ano depois, em 23 de junho de 1998.
O motivo? As duas seleções caíram no mesmo grupo da Copa do Mundo da França e voltaram a se enfrentar, desta vez no Orange Vélodrome, em Marselha.
Curiosamente, o grupo também contava com Marrocos e Escócia - duas das mesmas seleções que dividiram a chave com o Brasil nesta Copa.
O duelo contra a Noruega fechava a fase de grupos. O Brasil já tinha vencido os dois primeiros jogos, somava seis pontos e tinha a liderança garantida. Independentemente do resultado, a classificação para as oitavas de final já estava assegurada.
Para os noruegueses, porém, o cenário era completamente diferente. Com apenas dois pontos e vendo o resultado da outra partida do grupo complicar sua situação, só a vitória manteria a equipe viva na competição. Era vencer ou dar adeus à Copa.
A partida foi disputada no solstício de verão, o dia mais longo do ano. Pouco mais de uma hora antes da bola rolar, a FIFA promoveu uma cerimônia de casamento no gramado do Vélodrome entre uma noiva brasileira e um noivo norueguês, celebrando a união simbólica entre os dois países.
Quando o jogo começou, no entanto, o clima amistoso ficou para trás. O estádio virou palco de um duelo intenso entre sul-americanos e europeus.
O gol só saiu aos 33 minutos do segundo tempo. Bebeto apareceu para cabecear um cruzamento preciso de Denílson, que ganhou vaga entre os titulares por causa da suspensão de César Sampaio.
Confiantes na vitória, os torcedores brasileiros passaram a provocar os noruegueses, cantando "eliminado!" nas arquibancadas.
Mas, tirando o lance que originou o gol, o Brasil criou pouco. Mesmo com um dos elencos mais talentosos de toda a Copa, a equipe teve dificuldades para transformar a superioridade técnica em chances claras.
E a falta de eficiência acabaria custando caro.
Aos 38 do segundo tempo, Rivaldo perdeu a bola no meio-campo, e a jogada terminou nos pés de Tore André Flo. O atacante venceu Júnior Baiano no duelo individual e bateu na saída de Taffarel para empatar a partida.
A reação norueguesa ainda não tinha terminado.
Poucos minutos depois, Flo voltou a levar vantagem sobre Baiano dentro da área e acabou derrubado pelo zagueiro. Pênalti.
Kjetil Rekdal, experiente meio-campista do Hertha BSC, assumiu a responsabilidade e converteu a cobrança.
Apito final: 2 a 1 para a Noruega.
A vitória garantiu aos "vikings" a primeira classificação para o mata-mata de uma Copa do Mundo em sua história e entrou para sempre no imaginário do futebol norueguês.
Embora a campanha tenha terminado logo nas oitavas de final, diante da Itália, aquele triunfo sobre o Brasil inspirou livros, documentários, reportagens e até uma ópera no país.
Já os futuros pentacampeões deixaram Marselha atordoados depois de sofrer a primeira derrota de sua história para os noruegueses.
O novo ciclo: Oslo, 2006
O próximo encontro entre Brasil e Noruega só aconteceria quase uma década depois, em 16 de agosto de 2006.
Mais uma vez, o palco foi o Ullevaal Stadion, em Oslo.
O amistoso aconteceu logo após a Copa do Mundo de 2006. A Noruega sequer tinha se classificado para o torneio, enquanto o Brasil chegava de uma campanha frustrante. Mesmo apontada como grande favorita ao título e dona de um elenco repleto de alguns dos maiores nomes da história do futebol, a Seleção acabou eliminada pela França nas quartas de final.
A decepção custou o cargo de Carlos Alberto Parreira. Em seu lugar assumiu Dunga, então com 42 anos, campeão mundial como jogador em 1994 e ainda no início da carreira como treinador.
O amistoso contra a Noruega marcaria justamente sua estreia no comando da Seleção.
Depois das duras críticas recebidas pelo Brasil na Copa, Dunga promoveu uma reformulação profunda. Em sua primeira convocação, deixou de fora todas as estrelas do chamado "Quadrado Mágico" - Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Adriano - além de nomes como Dida, Cafu e Roberto Carlos.
A mensagem era clara: a prioridade deixaria de ser o brilho individual para dar lugar ao coletivo. Como resumiu o próprio treinador: "A grande estrela tem que ser a Seleção Brasileira. Se alguém se colocar acima, o trabalho já começa errado." (Folha de São Paulo)
O novo ataque passou a contar com jogadores como Robinho, Fred, Elano, Daniel Carvalho, Vágner Love e Júlio Baptista.
Dunga também tinha um motivo pessoal para buscar a vitória. Afinal, ele fazia parte da equipe derrotada pelos noruegueses em 1997 e 1998.
Seu auxiliar, o ex-lateral Jorginho, também conhecia bem o adversário, já que esteve em campo no primeiro duelo entre as seleções, em 1988.
A comissão técnica e os jogadores entraram em campo determinados a conquistar a primeira vitória do Brasil sobre os noruegueses. A equipe mostrou intensidade e criou boas jogadas ofensivas, mas a falta de entrosamento pesou - o grupo tinha feito apenas um treino antes da partida - e não conseguiu superar a defesa adversária.
Até que a história pareceu se repetir.
No começo do segundo tempo, Morten Gamst Pedersen, então meio-campista do Blackburn Rovers, cobrou uma falta com precisão e colocou a Noruega em vantagem.
O gol, porém, não abalou o Brasil como nos encontros anteriores. Pouco mais de dez minutos depois, Fred tabelou com Daniel Carvalho, que finalizou para empatar a partida.
Nos minutos finais, as duas equipes ainda tiveram chances de sair com a vitória. Fred assustou pelo lado brasileiro, enquanto John Arne Riise respondeu pela Noruega.
Nenhum dos dois conseguiu balançar as redes, e o confronto terminou empatado em 1 a 1.
O próximo capítulo: East Rutherford, 2026
Já se passaram dez anos desde esse último confronto entre as duas seleções, e o fato permanece: a Noruega é a única seleção que o Brasil nunca conseguiu vencer.
Em quatro jogos entre os dois países, o Brasil soma duas derrotas e dois empates, com cinco gols marcados e oito sofridos.
Quase metade desses gols da Noruega - três ao todo - foram marcados por Tore André Flo, um nome que ainda marca a memória de muitos torcedores brasileiros que o viram dominar defesas com força física e precisão na finalização.
O atacante está entre os poucos noruegueses que já chegaram a uma indicação ao Ballon d'Or - em 1998, justamente no ano em que ajudou sua seleção a vencer o Brasil na Copa do Mundo.
Outros nomes da Noruega que já foram indicados ao prêmio são: Rune Bratseth (1992 e 1993), Bent Skammelsrud (1997), Erling Haaland (2022, 2023, 2024 e 2025) e Martin Ødegaard (2023 e 2024).
Para frustração de parte da torcida brasileira, os dois últimos seguem como peças centrais da seleção atual.
Haaland, atacante de 1,95m do Manchester City e vencedor do Troféu Gerd Müller em 2023 como maior artilheiro da temporada, já é o maior goleador da história da Noruega, com 60 gols, mesmo tendo apenas 25 anos.
No duelo deste ano, caberá a Gabriel Magalhães, do Arsenal - adversário frequente de Haaland na Premier League - e a Marquinhos, capitão do Paris Saint-Germain nas últimas conquistas da Liga dos Campeões - a missão de tentar conter o centroavante norueguês.
Um detalhe curioso: o pai de Erling, o ex-lateral Alf-Inge Haaland, esteve em campo na vitória norueguesa sobre o Brasil em 1997.
Até agora, seu filho já marcou cinco gols nesta Copa - a primeira participação da Noruega desde a histórica edição de 1998. Ødegaard, por sua vez, ainda não marcou, mas já soma três assistências decisivas.
Ainda assim, os números não fazem do Brasil um "azarão" neste confronto.
Afinal, a Seleção acumula ao longo da história uma enorme lista de jogadores indicados ao Ballon d'Or, incluindo quatro vencedores - Ronaldo (1997 e 2002), Rivaldo (1999), Ronaldinho (2005) e Kaká (2007) - além de nomes da equipe atual, como Alisson (2018 e 2019), Marquinhos (2019), Casemiro (2022), Fabinho (2022), Neymar (2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018 e 2021), Raphinha (2025) e Vinícius Júnior (2022, 2023, 2024 e 2025).
Além disso, o Brasil é a única seleção que venceu cinco Copas do Mundo e participou de todas as edições do torneio, somando 79 vitórias e 246 gols em 118 partidas.
A Noruega, por sua vez, esteve presente em apenas quatro edições da Copa - 1938, 1994, 1998 e 2026 -, com cinco vitórias, cinco derrotas e 17 gols marcados em 12 jogos disputados.
Mas os números das duas seleções nesta Copa não têm sido tão diferentes assim.
Ambas venceram três das quatro partidas disputadas até aqui: o Brasil empatou uma (contra o Marrocos), enquanto a Noruega sofreu uma derrota (diante da França).
O Brasil marcou nove gols nessas partidas, enquanto a Noruega marcou dez.
Já na defesa, os sul-americanos sofreram apenas dois gols até agora, enquanto os escandinavos sofreram cinco.
Ainda assim, a pressão pesa mais do lado brasileiro, que tenta deixar para trás a chamada “maldição norueguesa” e seguir em busca do sonhado hexacampeonato.
Kjetil Rekdal, autor do gol da vitória sobre o Brasil na Copa de 1998, acredita que isso pode favorecer a Noruega: “O Brasil com certeza estará sob mais pressão no domingo. Esse medo sempre vai existir - o receio de que eles voltem a tropeçar contra a Noruega.” (Reuters)
Na última terça-feira, os “vikings” conquistaram sua primeira vitória em mata-mata de Copa do Mundo, ao bater a Costa do Marfim e avançar às oitavas de final. Agora, tentam manter o embalo com a mesma postura competitiva.
Do outro lado, Haaland - principal nome da seleção - adota um tom bem mais leve antes do duelo. O atacante afirmou: “Eu torço pelo Brasil. Tenho muitos amigos lá, conheço muita gente. Vai ser um jogo especial. Gosto do país e do estilo de jogo deles.” (GE)
Resta saber o desfecho no domingo.
Será que o Brasil de Carlo Ancelotti finalmente vai conseguir quebrar a “maldição norueguesa”? Ou os Vikings vão mais uma vez atrapalhar os planos da Amarelinha e adiar o sonho do hexa?
Em breve saberemos.