O quarto obstáculo rumo ao hexa

Na segunda-feira, no NRG Stadium, em Houston, Brasil e Japão entram em campo por uma vaga nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.

Será mais um capítulo de uma história que já teve 14 encontros entre as duas seleções.

Como aquecimento para esse duelo, vale relembrar os confrontos anteriores e entender como o pentacampeão do mundo e os gigantes do leste asiático construíram essa rivalidade até chegarem ao encontro deste ano.

O primeiro capítulo: Rio de Janeiro, 1989

O primeiro jogo entre Brasil e Japão aconteceu há quase 40 anos, em 23 de julho de 1989.

Naquele período, a liga japonesa ainda era semi-profissional, embora o país já estivesse dando passos importantes rumo à profissionalização do futebol, algo que se tornaria realidade alguns anos depois. A seleção também era formada, em grande parte, por jogadores amadores, e o esporte ainda estava longe de ter a popularidade do sumô e do beisebol. Até então, o maior feito do futebol japonês era a medalha de bronze conquistada nos Jogos Olímpicos de 1968.

No Brasil, o cenário era bem diferente. O futebol já era profissional desde a década de 1930, e o país tinha se consolidado como uma das grandes potências do esporte, tanto em clubes quanto na seleção, que já tinha três títulos mundiais: 1958, 1962 e 1970.

Por isso, muita gente esperava uma goleada quando o Japão viajou ao Rio de Janeiro para enfrentar o Brasil pela primeira vez, no Estádio São Januário.

O resultado, porém, ficou longe de ser uma goleada. O Brasil venceu por apenas 1 a 0, graças a um cabeceio certeiro de Bismarck, aos 29 minutos do segundo tempo, completando um cruzamento de Cristóvão Borges.

Além de ter sido o primeiro encontro entre os dois países, a partida também marcou um dos primeiros capítulos da trajetória de Cláudio Taffarel na Seleção. O goleiro tinha estreado apenas um ano antes e, dali em diante, se tornaria um dos grandes ídolos da era moderna da Amarelinha, com mais de 100 partidas disputadas, dois títulos da Copa América e papel decisivo na conquista da Copa do Mundo de 1994.

Taffarel guarda boas lembranças daquele dia: "Tenho uma lembrança boa. Era o meu início na Seleção Principal, em um amistoso 'estranho', digamos assim, de jogar com o Japão no Brasil. [...] É muito gratificante ter essa lembrança." (CBF TV)

A Umbro Cup: Liverpool, 1995

Passaram-se alguns anos até que Brasil e Japão voltassem a se enfrentar.

O reencontro aconteceu em 6 de junho de 1995, pela chamada Umbro Cup. O torneio amistoso internacional era patrocinado pela marca esportiva, então fornecedora da seleção inglesa, e servia como uma espécie de ensaio para a Eurocopa de 1996. As partidas foram disputadas em diferentes estádios da Inglaterra.

Recém-coroado tetracampeão do mundo, o Brasil de Mário Zagallo participou da competição e acabou ficando com o título, superando Inglaterra, Suécia e Japão.

A vitória por 3 a 0 sobre os japoneses foi muito mais o tipo de domínio que se esperava da primeira partida entre os dois países, alguns anos antes.

Mesmo sem Romário e Bebeto, o Brasil deu um verdadeiro espetáculo diante de mais de 29 mil torcedores debaixo de chuva no Goodison Park, estádio do Everton, em Liverpool.

A expectativa para ver os campeões do mundo era tão grande que a partida começou com 15 minutos de atraso. O público demorou a entrar no estádio, e a diretoria do Everton informou que cerca de 3 mil pessoas não conseguiram chegar a tempo.

Logo aos seis minutos de jogo, Roberto Carlos abriu o placar em grande estilo. Depois de receber um passe de Ronaldo, arrancou em velocidade e finalizou rasteiro para marcar um belo gol.

Os outros dois gols brasileiros saíram no segundo tempo, ambos marcados por Zinho, que naquela época defendia o Yokohama Flügels, do Japão.

O mais bonito deles veio de um cruzamento de Juninho Paulista. A bola desviou no zagueiro Masami Ihara e sobrou para Zinho, que acertou um belo voleio.

Apesar da derrota por três gols, o Japão foi elogiado pela postura em campo, buscando o ataque até o fim e sem se fechar defensivamente em nenhum momento.

O atacante Kazu Miura preferiu destacar o aprendizado deixado pela partida: "O nível técnico dos brasileiros era muito alto. Quando tentávamos dar os desarmes, nosso tempo de reação não era dos melhores e eles nos deixavam para trás. Mas, se enfrentarmos equipes experientes como essa, no futuro teremos mais chances de conquistar bons resultados." (Cayman Compass)

O fato de Zinho estar atuando no futebol japonês naquela época não era mera coincidência.

Na verdade, ele fazia parte de uma tendência que tinha um ponto de partida bem definido.

Em 1991, Zico, já consagrado como uma das maiores lendas do futebol brasileiro, surpreendeu ao sair da aposentadoria, aos 38 anos, para defender o Sumitomo Metals, clube da cidade de Kashima que disputava a segunda divisão japonesa. O objetivo era garantir uma vaga na J1 League, a primeira liga totalmente profissional do país, que estreou oficialmente em 1993.

Assim como fez pelo Flamengo e pela Seleção Brasileira, Zico virou artilheiro também no Japão. O Sumitomo Metals logo conquistou o acesso à elite e passou a se chamar Kashima Antlers.

A chegada de Zico é vista como um dos momentos mais importantes da história do futebol japonês, sendo fundamental para a criação da liga profissional e para a popularização do esporte no país.

A experiência deu tão certo que, nos anos seguintes, diversos craques brasileiros atravessaram o oceano para jogar no Japão.

A goleada em solo japonês: Tóquio, 1995

A influência foi tão grande que, quando Brasil e Japão se enfrentaram pela terceira vez - apenas dois meses depois desse segundo encontro - a Seleção Brasileira entrou em campo com um recorde de sete jogadores que atuavam no futebol japonês: o goleiro Gilmar (Cerezo Osaka); os defensores Ronaldão (Shimizu S-Pulse) e Jorginho (Kashima Antlers); e os meio-campistas César Sampaio (Yokohama Flügels), Dunga (Júbilo Iwata), Leonardo (Kashima Antlers) e Zinho (Yokohama Flügels).

Era o dia 9 de agosto de 1995 - um dia de calor intenso no Estádio Nacional de Tóquio e o 64º aniversário do lendário técnico Mário Zagallo. Em campo, o Brasil conseguiu uma vitória ainda mais convincente do que no encontro anterior e goleou o Japão por 5 a 1.

O primeiro gol da Amarelinha saiu depois de um lance infeliz do goleiro Nobuyuki Kojima, que acabou marcando um gol contra depois de um escanteio cobrado por Jorginho. Poucos minutos depois, Edmundo ampliou a vantagem brasileira.

Logo no início do segundo tempo, porém, o Japão entrou para a história. Depois de interceptar um passe errado de Edmundo, Kazuyoshi Miura iniciou a jogada que terminou nos pés de Masahiro Fukuda. O atacante bateu de direita e marcou o primeiro gol japonês contra a Seleção Brasileira.

O gol, no entanto, não abalou os tetracampeões do mundo. O Brasil ainda balançou as redes mais três vezes antes do apito final, com Leonardo, César Sampaio - que marcou pela primeira vez com a camisa da Seleção - e, por fim, Sávio.

Apesar da vitória tranquila, alguns jogadores brasileiros não pouparam críticas à atuação japonesa depois da partida.

Dunga classificou os japoneses como "inocentes" e disse que faltava mais "malícia" ao time.

Careca foi ainda mais duro: "Isso não foi nem treino; foi uma pelada. Eles aqui são metidinhos, mas têm muito a aprender." (Folha de São Paulo)

Embora o confronto entre Brasil e Japão nos Jogos Olímpicos de 1996 não entre na lista de duelos oficiais entre as seleções principais - já que foi disputado entre equipes sub-23 -, ele ocupa um lugar importante na história do futebol dos dois países.

No que ficou conhecido como o "Milagre de Miami", a seleção olímpica japonesa, que não participava de uma Olimpíada há 28 anos, derrotou o Brasil pela primeira vez: 1 a 0.

A Seleção Brasileira chegava como uma das favoritas ao ouro, com uma geração repleta de talentos como Rivaldo, Ronaldo, Bebeto e Roberto Carlos. Mas acabou surpreendida quando o meia Teruyoshi Ito, então com apenas 21 anos, marcou o gol da vitória japonesa e protagonizou uma das maiores zebras da história do torneio.

Anos depois, o próprio Dunga - que em 1995 tinha chamado os japoneses de "inocentes" em tom de superioridade - pareceu rever sua opinião: "A atual safra de jogadores do Japão é ótima porque tem iniciativa própria e é capaz de surpreender. Eles não baixam mais a cabeça para qualquer ordem. Não estão mais presos à cultura japonesa da obediência e disciplina e, por isso, se tornaram mais criativos e perigosos." (Folha de São Paulo)

O duelo tenso: Osaka, 1997

Ainda assim, as declarações de Dunga e Careca em 1995 deixaram um certo ressentimento entre as torcidas dos dois países. Por isso, quando as seleções principais voltaram a se enfrentar, em 13 de agosto de 1997, no Estádio Nagai, em Osaka, o amistoso teve muito pouco de amistoso.

Torcedores brasileiros e japoneses entraram em conflito durante toda a partida, e dois invasores chegaram a entrar em campo - um deles carregando orgulhosamente uma bandeira do Brasil. Depois do apito final, a tensão continuou e a polícia precisou intervir para separar as torcidas.

Em meio a esse clima hostil, teve também um breve momento de carinho. Leonardo foi aplaudido pela torcida japonesa, que ainda guardava boas lembranças de sua passagem de dois anos pelo Kashima Antlers. Ao ser substituído aos 27 minutos do segundo tempo, o meia retribuiu o carinho jogando suas chuteiras para as arquibancadas.

Dentro de campo, porém, o roteiro foi parecido com os encontros anteriores: mais uma vitória convincente do Brasil, desta vez por 3 a 0. O volante Flávio Conceição, então no Deportivo La Coruña, marcou os dois primeiros gols da partida, enquanto o zagueiro Júnior Baiano, do Flamengo, fechou o placar de cabeça.

A nova fase japonesa: Tóquio, 1999

O retorno do Brasil ao Estádio Nacional de Tóquio, em 31 de março de 1999, terminou com mais uma vitória sobre o Japão. Desta vez, a Seleção venceu por 2 a 0, com gols de Márcio Amoroso e Emerson.

Apesar do resultado já parecer familiar, os brasileiros começavam a perceber a rápida evolução do futebol japonês e os talentos que o país vinha revelando, entre eles o meia-atacante Hidetoshi Nakata, então com 22 anos.

Destaque da Perugia, da Itália, Nakata tinha recebido sua primeira indicação ao Ballon d'Or no ano anterior e já era visto como a principal referência técnica do Japão.

Antes da partida, o técnico brasileiro Vanderlei Luxemburgo fez questão de destacar as qualidades do jogador: "Nakata é inteligente e muito técnico. Vamos tomar especial cuidado nos seus deslocamentos." (Folha de São Paulo)

No fim, Nakata não balançou as redes, mas a declaração de Luxemburgo simbolizava uma mudança de postura do Brasil em relação ao Japão. O país asiático já não era visto apenas como uma seleção nova em desenvolvimento, e sim como uma força emergente que merecia respeito no cenário internacional.

O encontro na Copa das Confederações: Kashima, 2001

O primeiro encontro entre Brasil e Japão em uma competição oficial aconteceria pouco mais de dois anos depois, no Kashima Soccer Stadium, em 4 de junho de 2001, pela fase de grupos da Copa das Confederações.

O torneio foi disputado na Coreia do Sul e no Japão e serviu como evento-teste para a Copa do Mundo do ano seguinte, que seria organizada pelos mesmos dois países.

Depois de anos de ampla superioridade em amistosos, o Brasil não conseguiu repetir seu domínio quando a partida valeu pontos. O confronto terminou empatado em 0 a 0.

Ao fim da fase de grupos, o Japão avançou na primeira colocação, enquanto o Brasil ficou em segundo.

Embora a França, então campeã mundial, tenha levantado o troféu ao fim da competição, seria o Brasil quem voltaria a sorrir na Copa do Mundo de 2002, conquistando o pentacampeonato justamente em solo japonês, no Estádio Internacional de Yokohama.

O reencontro na Copa das Confederações: Colônia, 2005

O próximo encontro entre Brasil e Japão aconteceu em mais uma edição da Copa das Confederações, desta vez em 22 de junho de 2005, no RheinEnergieStadion, em Colônia. O torneio servia como preparação para a Copa do Mundo de 2006, que seria disputada na Alemanha.

Mais uma vez, o Brasil não conseguiu manter o histórico de domínio sobre os japoneses e ficou no empate por 2 a 2.

Os gols do Japão foram marcados por Shunsuke Nakamura e Masashi Oguro. Já os brasileiros balançaram as redes em uma curiosa troca de favores: primeiro, Ronaldinho deu assistência para Robinho marcar; depois, foi a vez de Robinho servir Ronaldinho.

Apesar do empate, apenas o Brasil avançou às semifinais, graças ao saldo de gols superior. A Seleção terminou em segundo lugar no grupo, atrás do México, enquanto o Japão ficou em terceiro.

O resultado foi especialmente amargo para os japoneses porque um gol da equipe tinha sido anulado, tirando deles aquela que poderia ter sido uma vitória histórica sobre o Brasil.

A Amarelinha acabaria conquistando o título dias depois, com Adriano - duas vezes indicado ao Ballon d'Or - sendo eleito o melhor jogador do torneio. No entanto, a campanha brasileira na Copa do Mundo do ano seguinte seria bem menos brilhante.

A noite de Copa: Dortmund, 2006

E foi justamente na Copa de 2006 que as duas seleções voltaram a se encontrar.

O duelo aconteceu em 22 de junho, no Westfalenstadion, em Dortmund, pela terceira e última rodada da fase de grupos.

Curiosamente, tanto no confronto de 2005 quanto no de 2006, o técnico do Japão era ninguém menos que Zico, a lenda brasileira que tinha se transformado em um dos maiores ícones da história do futebol japonês.

Antes da partida, o ex-craque optou por não divulgar a escalação para a imprensa e só revelou o time aos jogadores na tarde anterior ao jogo, acreditando que o fator surpresa poderia lhe dar alguma vantagem estratégica diante do Brasil.

Não deu certo.

Embora o Japão tenha saído na frente com um gol de Keiji Tamada, aos 34 minutos, os ‘Samurais Azuis’ acabaram sofrendo uma derrota por 4 a 1. Ronaldo marcou duas vezes, enquanto Juninho Pernambucano e Gilberto completaram a goleada brasileira.

Foi uma noite de sentimentos conflitantes para Zico, dividido entre dois países que ocupam um lugar especial em sua vida. Questionado antes da partida se cantaria o hino brasileiro ao lado dos jogadores da Seleção, ele respondeu com uma declaração que resume bem esse dilema: "Em qualquer circunstância eu canto e me emociono com o hino. Mas tudo termina na hora em que a bola rolar." (Folha de São Paulo)

O Brasil encerrou a fase de grupos em primeiro, enquanto o Japão terminou na última colocação e foi eliminado. A Amarelinha também acabaria se despedindo do torneio de forma frustrante, caindo diante da França nas quartas de final.

O show brasileiro: Wrocław, 2012

Seriam seis anos até que Brasil e Japão voltassem a se encontrar em campo.

O reencontro aconteceu em um amistoso disputado em 16 de outubro de 2012, no Estádio Municipal de Wrocław, na cidade polonesa de mesmo nome.

O estádio tinha sido construído especialmente para a Eurocopa de 2012, mas passou a ser pouco utilizado depois do torneio. Como a obra tinha custado caro, a realização de amistosos internacionais era vista como uma forma de dar vida ao local.

No dia da partida, porém, o público foi tão abaixo do esperado que, para evitar um grande prejuízo financeiro para a cidade, escolas locais liberaram seus alunos para assistir ao jogo. Ainda assim, as arquibancadas ficaram longe de lotadas quando Brasil e Japão se enfrentaram pela nona vez.

Sem se deixar abalar pelo ambiente morno, o Brasil deu um show sob o comando do técnico Mano Menezes e venceu por 4 a 0.

Sem um centroavante fixo, o ataque brasileiro funcionou de forma fluida e dinâmica, com um quarteto formado por Kaká, Neymar, Oscar e Hulk. 

Neymar marcou duas vezes, Kaká deixou o seu e Paulinho completou a goleada.

O resultado trouxe alívio para Menezes, que vinha sendo bastante pressionado após uma sequência de atuações e resultados decepcionantes.

E o adversário estava longe de ser o eterno azarão de décadas anteriores. O Japão chegava embalado, com uma geração talentosa liderada por nomes mundialmente conhecidos, como Keisuke Honda e Shinji Kagawa, e vinha de uma vitória por 1 a 0 sobre a França em seu amistoso anterior.

A vitória em casa: Brasília, 2013

Menos de um ano depois, em 15 de junho de 2013, as duas seleções voltaram a se encontrar, desta vez em território brasileiro.

O duelo aconteceu no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, pela rodada de abertura da Copa das Confederações.

No fim, a vitória brasileira foi relativamente tranquila. A Seleção marcou dois gols relâmpagos: um logo aos três minutos do primeiro tempo, com Neymar, e outro aos três minutos da etapa final, com Paulinho.

Já nos acréscimos, Jô, do Atlético Mineiro - convocado às pressas depois da lesão de Leandro Damião - aproveitou a oportunidade para deixar o dele e fechar o placar em 3 a 0.

Anfitrião do torneio, o Brasil terminou na liderança do grupo, enquanto o Japão ficou na última colocação.

Dias depois, a Amarelinha conquistaria o título da Copa das Confederações, e Neymar seria eleito o melhor jogador da competição.

O espetáculo de Neymar: Kallang, 2014

Dois anos depois, o Brasil voltou a golear o Japão, desta vez por 4 a 0.

A partida foi disputada em 14 de outubro de 2014, no então recém-inaugurado Estádio Nacional de Singapura em Kallang, e atraiu o maior público para uma partida de futebol no país em mais de cinco anos.

Os mais de 51 mil torcedores presentes tiveram o privilégio de assistir a uma atuação de gala de Neymar.

Aos 22 anos, o craque vivia grande fase no Barcelona, onde já brilhava há cerca de um ano e meio. No entanto, ele não vestia a camisa da Seleção há três meses, desde a lesão nas costas sofrida na Copa do Mundo de 2014, após a entrada do colombiano Juan Camilo Zúñiga.

Mesmo depois de tanto tempo longe da Amarelinha, Neymar voltou com sede de mostrar serviço.

E mostrou mesmo.

O camisa 10 marcou os quatro gols do Brasil: dois com o pé direito, um de primeira e outro de cabeça.

A atuação também teve um significado especial em termos estatísticos. Com os quatro gols, Neymar chegou aos 40 gols totais pela Seleção. Hoje, mais de uma década depois, esse número já subiu para 79, marca que o coloca como o maior artilheiro da história do Brasil.

Ao olhar para a escalação daquela noite, alguns nomes também chamam atenção em retrospecto, como o do lateral-direito Mário Fernandes, que apenas dois anos depois passaria a defender a seleção da Rússia.

O primeiro teste de Tite: Lille, 2017

O encontro seguinte entre brasileiros e japoneses aconteceu em 10 de novembro de 2017, em um amistoso disputado no Stade Pierre-Mauroy, em Lille.

Era a primeira vez que a Seleção Brasileira jogava na famosa cidade do norte da França.

O então técnico Tite aproveitou a partida para observar diferentes opções de elenco e avaliar quais jogadores poderiam ganhar uma vaga na convocação para a Copa do Mundo de 2018.

O resultado foi mais uma vitória brasileira, desta vez por 3 a 1.

Neymar abriu o placar com um pênalti, mas teve a chance de marcar novamente negada minutos depois, quando o goleiro japonês Eiji Kawashima defendeu sua segunda cobrança na noite.

Ainda assim, outros nomes apareceram para decidir a partida. Marcelo marcou com uma pancada de seu pé direito, tradicionalmente o mais fraco, e Gabriel Jesus também deixou o dele antes do intervalo.

Já no segundo tempo, o zagueiro Tomoaki Makino descontou para o Japão de cabeça.

O goleiro Cássio, do Corinthians, que fazia sua estreia pela Seleção, foi criticado por não conseguir defender a finalização. Mesmo assim, a atuação não impediu que ele entrasse na lista de convocados de Tite para a Copa do Mundo de 2018.

O segundo teste de Tite: Tóquio, 2022

Em 6 de junho de 2022, Tite voltou a usar um amistoso como teste para observar opções antes de uma Copa do Mundo - desta vez, a edição que seria disputada no fim daquele ano, no Catar.

Em um jogo bem mais equilibrado do que muitos dos confrontos anteriores entre as seleções, o Brasil venceu o Japão por 1 a 0 no Estádio Nacional de Tóquio. O gol saiu de pênalti, convertido por Neymar aos 77 minutos.

A virada histórica: Tóquio, 2025

Já no dia 14 de outubro do ano passado, Brasil e Japão voltaram a se enfrentar pela 14ª e mais recente vez, em um amistoso no Estádio Ajinomoto, também em Tóquio. Assim como Tite tinha feito antes das Copas de 2018 e 2022, o novo técnico do Brasil, Carlo Ancelotti, utilizou a partida para testar diferentes jogadores e ajustar a equipe para a Copa em andamento.

O jogo acabou entrando para a história.

O Brasil começou melhor e foi para o intervalo vencendo por 2 a 0, com gols do lateral-direito Paulo Henrique, do Vasco, e do ponta Gabriel Martinelli, do Arsenal.

No segundo tempo, tudo mudou.

Em uma virada inacreditável, o Japão não se entregou, manteve a posse de bola e marcou três gols, virando o placar e garantindo uma vitória por 3 a 0 - a primeira da história da seleção japonesa sobre a seleção principal do Brasil.

Os gols japoneses foram marcados por três jogadores diferentes: Takumi Minamino, aos sete minutos do segundo tempo; Keito Nakamura, dez minutos depois; e Ayase Ueda, aos 26, completando a virada.

A derrota foi muito amarga para os torcedores brasileiros, mas o contexto também ajuda a explicar o resultado.

Ancelotti estava claramente em fase de testes, promovendo mudanças na escalação e observando alternativas para o torneio. Além disso, erros individuais pesaram diretamente no placar: um passe errado do zagueiro Fabrício Bruno, do Cruzeiro, acabou resultando no gol de Minamino, e o chute de Nakamura desviou no próprio defensor antes de entrar. A atuação acabou prejudicando suas chances de convocação para a Copa, da qual ele ficou fora. Já no terceiro gol japonês, o goleiro Hugo Souza, do Corinthians, também foi criticado por não conseguir defender o cabeceio de Ueda - um lance que pode ter contribuído para sua ausência na lista final da Copa.

Ainda assim, Ancelotti encarou o jogo como uma lição importante para a Seleção: "O que temos que avaliar é a reação da equipe depois do primeiro erro, que não foi boa porque perdemos um pouco do equilíbrio no campo. É uma boa aula para o futuro. É um processo, e na Copa do Mundo temos que ter equilíbrio." (ESPN)

O próximo capítulo: Houston, 2026

Então, onde tudo isso nos deixa antes do confronto entre Brasil e Japão na segunda-feira, em Houston?

Bem, apesar do triunfo japonês no fim do ano passado, é seguro dizer que eles chegam para o confronto com menos pressão sobre os ombros do que o Brasil.

A Amarelinha aparece atualmente na 5ª posição do ranking da FIFA, enquanto o Japão - a seleção asiática mais bem colocada - ocupa o 17º lugar.

O elenco brasileiro reúne sete jogadores que já foram indicados ao Ballon d'Or: Alisson, Marquinhos, Casemiro, Fabinho, Neymar, Raphinha e Vinícius Júnior. No comando, está Carlo Ancelotti, um dos técnicos mais vitoriosos da era moderna, vencedor do Troféu Johan Cruyff em 2024.

Ao longo da história, o Brasil sempre teve forte presença na premiação. O país soma quatro vencedores do Ballon d'Or: Ronaldo (1997 e 2002), Rivaldo (1999), Ronaldinho (2005) e Kaká (2007).

Do outro lado, o elenco japonês não conta com jogadores indicados ao prêmio na atual geração. No total, apenas dois japoneses já foram indicados: Hidetoshi Nakata (1998, 1999 e 2001) e Shunsuke Nakamura (2007).

O Brasil é o maior campeão da história da Copa do Mundo, com cinco títulos, enquanto o Japão, apesar de participar regularmente desde 1998, nunca passou das oitavas de final.

No histórico do confronto entre as duas seleções, são 14 jogos: 11 vitórias do Brasil, dois empates e apenas uma derrota - justamente a do ano passado - com 37 gols marcados e apenas oito sofridos.

Desses 37 gols, nove foram de Neymar, que aos 34 anos ainda chega como uma das principais referências ofensivas da Seleção e tenta ampliar esse número diante do Japão.

Mas subestimar o Japão seria um erro.

A nação evoluiu muito nas últimas décadas e hoje se consolidou como a principal força do futebol asiático, além de ser uma seleção cada vez mais competitiva no cenário mundial.

Nas Eliminatórias Asiáticas, o Japão foi o primeiro país a garantir vaga na Copa, ainda em março do ano passado, dominando a competição com autoridade. O Brasil, por outro lado, teve dificuldades nas Eliminatórias Sul-Americanas e só confirmou a classificação em junho, terminando em quinto lugar - atrás de Argentina, Equador, Colômbia e Uruguai.

Na última Copa, apesar de mais uma eliminação nas oitavas de final, o time de Hajime Moriyasu conseguiu vitórias marcantes na fase de grupos contra duas potências europeias, Espanha e Alemanha.

Simplesmente não dá para subestimá-los.

Analisando as campanhas das duas seleções nesta Copa até aqui, existem algumas semelhanças importantes.

Embora o Brasil tenha somado duas vitórias e um empate, e o Japão uma vitória e dois empates, nenhuma das equipes perdeu na fase de grupos.

Ambas também marcaram sete gols nessas partidas, embora o Japão tenha sofrido três, contra apenas um do Brasil.

No volume ofensivo, o Brasil finalizou mais: 41 chutes no total, com 19 no alvo (46%). O Japão teve 29 finalizações, 11 delas na direção do gol (38%).

O dado mais animador para os torcedores japoneses, no entanto, é a distribuição dos gols. Todos os sete gols do Brasil foram marcados por apenas dois jogadores: Vinícius Júnior, do Real Madrid e quatro vezes indicado ao Ballon d'Or, que marcou quatro, e Matheus Cunha, do Manchester United, que marcou três. As assistências foram distribuídas entre quatro jogadores diferentes. Já os sete gols do Japão foram marcados por cinco jogadores diferentes: Ayase Ueda e Daichi Kamada com dois cada, além de Daizen Maeda, Junya Ito e Keito Nakamura com um. E cada um dos sete gols teve assistência de um jogador diferente. Isso sugere um ataque mais coletivo e imprevisível, enquanto o Brasil aparece mais dependente de suas principais referências ofensivas.

Em outros aspectos, os números são bastante parecidos.

Nenhuma das seleções teve domínio claro de posse de bola na Copa até agora: o Brasil tem média de 54%, e o Japão 51%. A precisão de passes também é alta para ambos, com 89% para os brasileiros e 86% para os japoneses. Nos duelos no chão, o equilíbrio segue: 51% de aproveitamento para o Brasil e 48% para o Japão.

Uma diferença notável, porém, aparece nos duelos aéreos: o Brasil vence 69%, enquanto o Japão vence apenas 35%.

Tudo indica que será uma partida muito equilibrada e tensa em campo.

Mas fora dele, talvez vejamos algo já tradicional nessa relação: respeito e amizade entre brasileiros e japoneses, dentro e fora do futebol.

Afinal, a maior população de descendentes japoneses fora do Japão vive no Brasil - são cerca de 2,5 milhões de pessoas, herança da imigração japonesa que começou a chegar ao país sul-americano no início do século XX depois do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação assinado em 1895.

Desde então, os dois países construíram laços fortes, que se estenderam para o futebol nos anos 1990 com a chegada de Zico e o subsequente fluxo de talentos brasileiros para o país. Vários jogadores nascidos no Brasil até já defenderam a seleção japonesa, como Ruy Ramos, Marcus Túlio Tanaka, Wagner Lopes e Alessandro Santos.

Hoje, há uma estátua de Zico - que ainda trabalha como diretor técnico do Kashima Antlers - no estádio do clube. O técnico do Japão, Hajime Moriyasu, ex-jogador da J. League, não consegue esconder a reverência que tem pelo brasileiro: "Ele nos conduziu a poder competir na Copa. Ofereceu muito ao Japão." (CNN Brasil)

Zico, por sua vez, também elogia muito o trabalho de Moriyasu e o reconhece como um dos grandes técnicos do futebol atual. Quando questionado se sua longa ligação com o Japão influenciaria sua decisão sobre para quem torcer na segunda-feira, porém, ele não deixou margem para dúvidas: "Eu vou torcer para o Brasil, sou brasileiro, pô! Agora, se ganhar o Japão, paciência. O que eu tenho certeza é que vai ser uma grande partida, porque o time do Japão joga o jogo." (FIFA)