Quando o Norte encontra o Sul

Em setembro de 1893 nascia o Futebol Clube do Porto. O clube, apelidado de “os Dragões”, rapidamente se tornou a grande força do futebol no norte de Portugal.

Dez anos depois, em fevereiro de 1904, surgiu o Sport Lisboa e Benfica, que ficou conhecido como “as Águias”. Pouco depois de entrarem em cena, o clube foi se impondo como uma potência no centro-sul do país.

Em abril de 1912, os clubes se enfrentaram pela primeira vez. Norte contra sul. Dragões contra Águias. Azul contra vermelho.

Não foi só um jogo - foi o início de algo muito maior.

A rivalidade nasceu ali, instantânea, quase inevitável.

(Presse Sports)

Mais de um século depois, a intensidade daquele primeiro encontro continua viva.

Assim como Real Madrid e Barcelona, a rivalidade entre Porto e Benfica atravessa gerações. Jogadores vêm e vão, treinadores também, temporadas inteiras passam. Mas uma coisa continua firme: em Portugal, quando se trata desses dois, ou é um… ou é o outro. Porto ou Benfica. Nunca ambos.

Bem… quase nunca.

Desde a criação do Ballon d'Or em 1956, 23 jogadores que passaram pelo Porto e 42 que passaram pelo Benfica já foram indicados ao prêmio.

Mas hoje, no 114º aniversário daquele primeiro confronto entre os dois clubes, a gente volta o olhar para uma exceção rara - os únicos 4 jogadores que vestiram as duas camisas dessa história e ainda assim chegaram à elite do futebol mundial, sendo indicados ao prêmio mais prestigiado do jogo.

Paulo Futre

Abrindo a lista está Paulo Futre.

O ponta português, nascido em 1966, na verdade começou a carreira no Sporting CP - o outro gigante do futebol em Portugal. Subiu pelas categorias de base e fez sua estreia profissional aos 17 anos, na temporada de 1983-84.

Depois de apenas uma temporada no time principal do Sporting, Futre deixou o clube e seguiu para o Porto.

A passagem pelos Dragões foi marcada por um sucesso enorme. Entre 1984 e 1987, ajudou o Porto a conquistar dois títulos nacionais seguidos, em 1985 e 1986, além de duas Supertaças de Portugal, em 1984 e 1987.

A maior conquista pelo clube veio com a vitória na Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1987, quando brilhou com uma atuação de Man of the Match na final contra um poderoso Bayern de Munique - o mesmo time que havia atropelado o então campeão Real Madrid por 4 a 1 na semifinal. Antes desse título do Porto, já fazia mais de duas décadas que um clube português não levava aquele troféu.

As atuações brilhantes de Futre no Porto lhe renderam duas indicações ao Ballon d’Or, em 1986 e 1987. Nesta última, terminou em segundo lugar, atrás apenas do holandês do Milan, Ruud Gullit.

Depois dos anos de glória no Porto, Futre se transferiu para o Atlético de Madrid, onde virou um dos favoritos da torcida e logo assumiu a braçadeira de capitão, mesmo lidando com lesões constantes.

Futre ainda foi indicado ao Ballon d’Or uma terceira e última vez em 1989, já atuando pelo Atlético.

No início de 1993, Futre retornou a Portugal, mas desta vez para vestir a camisa do Benfica. Apesar de uma passagem curta no clube do sul, marcada pelas mesmas lesões que o perseguiam na Espanha, ainda ajudou as Águias a conquistar a Taça de Portugal, marcando na final contra o Boavista.

Zlatko Zahovič

O segundo da lista é Zlatko Zahovič.

Nascido em 1971, o meio-campista esloveno começou a carreira no Partizan Belgrado em 1989, e rapidamente deixou a sua marca com qualidade e consistência. Principalmente, ajudou o clube a conquistar o campeonato nacional iugoslavo em 1993.

Naquele verão, Zahovič se transferiu para Portugal, assinando com o Vitória de Guimarães, no norte do país. Seguiu jogando com a mesma técnica e intensidade que já mostrava no Partizan, e não demorou para chamar a atenção de outros clubes portugueses. 

Numa partida contra o Porto na temporada de 1995-96, Zahovič fez uma atuação impressionante e marcou o gol que garantiu a vitória dramática do seu clube por 3 a 2. O Porto não teve mais dúvidas: decidiu contratar o meio-campista naquele mesmo verão.

Com os Dragões, Zahovič formou uma parceria ofensiva forte ao lado de Capucho, Ljubinko Drulović e Mário Jardel. Ele ajudou o clube a conquistar três títulos nacionais consecutivos, além de garantir duas classificações para a Taça UEFA.

Foi o terceiro maior artilheiro da Liga dos Campeões de 1998-99, mesmo com o clube não conseguindo passar da fase de grupos. Foram feitos como esse que o levaram à sua indicação ao Ballon d'Or em 1999.

Ele marcou 42 gols em 118 partidas pelo Porto antes de sair para o Olympiacos. O clube grego pagou 13,5 milhões de euros pelo meio-campista - na época, o maior valor já pago por um jogador esloveno.

Embora sua passagem pela Grécia tenha tido altos e baixos, ainda assim ele conquistou uma segunda indicação ao Ballon d'Or em 2000.

Depois, no verão de 2001, após uma temporada no Valência, Zahovič se juntou ao Benfica. Rapidamente virou peça-chave do time, marcando 20 gols e conquistando tanto a Taça de Portugal em 2004 quanto o título da liga em 2005.

No entanto, tensões entre Zahovič e o novo treinador Giovanni Trapattoni (indicado ao Ballon d'Or em 1963) levaram a um acordo mútuo para encerrar o contrato do jogador cinco meses antes do previsto.

Pouco depois, Zahovič se aposentou do futebol profissional, aos 34 anos.

Após encerrar a carreira, recebeu o convite para treinar a equipe de base do Benfica, mas optou por voltar à sua Eslovênia natal, onde se tornou diretor de futebol do NK Maribor em 2007.

Deco

De todos os nomes desta lista, Deco é o que carrega a história mais longa com o Ballon d’Or.

O meio-campista brasileiro se mudou para Portugal ainda adolescente e, depois de conseguir a cidadania, acabou escolhendo defender a seleção portuguesa no cenário internacional.

O Benfica foi o clube que trouxe Deco para a Europa. O antigo ídolo do clube, Toni, descobriu o jovem enquanto observava a Copa São Paulo de Futebol Júnior de 1997. Naquela época, Deco atuava pelo Centro Sportivo Alagoano (CSA). Toni não demorou a perceber o seu potencial, enxergando nele a possibilidade de um sucessor para o recém-saído Rui Costa.

As Águias contrataram Deco em junho daquele ano, mas logo após sua chegada, o emprestaram ao seu clube satélite, o Alverca.

Deco brilhou no Alverca, marcando 13 gols em 32 partidas e ajudando o clube lisboeta a subir para a primeira divisão.

Parecia certo que o “pequeno mágico” finalmente ia ganhar espaço no Benfica ao voltar em julho de 1998, mas, para sua frustração, o técnico Graeme Souness não viu seu potencial e acabou o enviando-o para o Salgueiros.

Mesmo com uma passagem marcada por lesões no Salgueiros, o outro gigante de Portugal, o Porto, enxergou em Deco o talento que Souness não tinha conseguido ver. Eles o contrataram em março de 1999, bem a tempo de conquistar o seu primeiro título nacional com o clube.

Nem precisa dizer: a aposta deu certo. Em quatro temporadas, Deco conquistou mais dois campeonatos nacionais, além de três Taças de Portugal, duas Supertaças de Portugal, uma Taça UEFA e, claro, o grande destaque - a tão cobiçada Liga dos Campeões em 2004. Foi o primeiro título do Porto na competição desde a conquista de Futre em 1987, e muito disso passou pelo controle absoluto de Deco no meio-campo. Naquela temporada, ele foi o maior assistente da competição, e essa consistência absurda rendeu o prêmio de Melhor Jogador de Clubes da UEFA.

Para completar, ainda marcou na vitória do Porto de 3 a 0 na final contra o Mônaco.

António Simões, antigo ídolo do Benfica, depois comentou o tamanho do erro que foi ter deixado Deco sair.

Durante o período em que atuou pelo grande rival do norte, Deco se consolidou como um dos melhores jogadores do mundo e foi indicado ao Ballon d’Or duas vezes (em 2003 e 2004). Pelo Porto, foram 228 partidas, com 48 gols e 102 assistências.

No verão de 2004, se transferiu para o Barcelona, onde viveria ainda mais conquistas nos anos seguintes, além de mais três indicações ao Ballon d’Or (2005, 2006 e 2007).

Maniche

O último nome indicado ao Ballon d’Or que atuou tanto pelo Porto quanto pelo Benfica é Maniche.

O meio-campista português, nascido em 1977, fez parte das categorias de base do Benfica no início dos anos 90. Depois de passar três temporadas no Alverca - onde Deco também tinha jogado - ele retornou para integrar o elenco principal das Águias.

Maniche marcou 14 gols em 67 partidas pelo clube, mas, por questões disciplinares e pela insistência do treinador em colocá-lo como ponta, e não no meio-campo, sua passagem pelo Benfica acabou sendo abreviada. Numa reviravolta do destino, ele foi para o rival, Porto, em 2002.

Jogando ao lado de Deco, Maniche retornou à sua posição no meio-campo e se destacou sob o comando de José Mourinho.

Ele marcou 22 gols pelo Porto e conquistou uma série de títulos, incluindo a Liga dos Campeões de 2004, a Taça UEFA de 2003, dois campeonatos nacionais consecutivos em 2003 e 2004, a Taça de Portugal de 2003 e a Supertaça de Portugal de 2004.

Na Copa Intercontinental de 2004, Maniche brilhou contra o Once Caldas, campeão da Libertadores, e foi o melhor jogador em campo.

Ainda naquele mesmo ano, recebeu sua primeira e única indicação ao Ballon d’Or.

Maniche deixou o clube para se juntar ao Dínamo de Moscou em maio de 2005, junto com vários colegas do Porto.

Dois lados, um legado

Então, aí está:

1 país. 2 clubes. 4 jogadores. 11 indicações ao Ballon d’Or.

A rivalidade entre Porto e Benfica é longa e histórica, com raízes profundas e entrelaçadas. Os clubes são opostos, mas também fazem parte, de forma inseparável, da história um do outro. Conectados, ligados para sempre.

Isso fica ainda mais evidente nas carreiras de Paulo Futre, Zlatko Zahovič, Deco e Maniche - jogadores que cruzaram a divisão entre dois lados de um mesmo país e deixaram sua marca em cada jogo, passe e gol.

Eles são Dragões. Eles são Águias.

Eles são eternos.