A estrada serpenteia por uma extensa floresta de carvalhos centenários, uma paisagem que marca a região. O termômetro marca 4°C, mas um vento cortante faz a sensação térmica ficar bem abaixo de zero. O centro da cidade de Vejle, com seu fiorde e as famosas pedras rúnicas vikings, Patrimônio Mundial da UNESCO, fica a apenas dez minutos de carro.
A região é tranquila. Alguns ciclistas encaram o terreno irregular, enquanto moradores passeiam com seus cães por caminhos abertos entre as árvores. Uma placa indicando "Vejle Stadion" aponta para a direita. No fim da estrada, aparece o novo estádio do clube local, construído em 2003 ao lado do antigo, cujas arquibancadas de concreto e pista de atletismo foram depois transformadas em um campo de futebol americano.
Um museu na frente do estádio conta a história do clube, fundado em 1891 e considerado um dos mais populares da Dinamarca. Lá dentro, o espaço reúne centenas de itens: camisas, licenças de jogadores, bolas, recortes de jornal e fotos. A fachada do novo estádio traz os nomes das lendas do clube. No lugar de maior destaque está Allan Simonsen, que começou sua trajetória no futebol ali e ganhou o France Football Ballon d'Or em 1977.
A estrela local de 70 anos aceita se encontrar ali. Chega pontualmente, cumprimenta com um aperto de mão caloroso e agradece pela visita. "Adoro a França. A última vez que fui foi em 2015. Um diretor do Montpellier me escreveu dizendo que o presidente do clube (Louis Nicollin) estava comemorando aniversário e ficaria honrado em ter uma das minhas camisas no museu. Claro que aceitei, e o clube me convidou para assistir a um jogo contra o Nantes e visitar aquele famoso museu. Foi incrível. Me diverti muito."
"Treinar as Ilhas Faroé foi o melhor trabalho que tive"
No Vejle Stadion, todo funcionário, voluntário e dirigente cumprimenta Allan Simonsen. Os olhares e sorrisos mostram o enorme respeito que o ex-internacional, que somou 55 jogos pela seleção e marcou 20 gols entre 1972 e 1986, inspira. Sentado na tribuna presidencial, o homem carinhosamente conhecido como "o Pardal de Vejle" observa o gramado. "Este clube foi onde tudo começou para mim. Hoje, sou um verdadeiro torcedor." Ele assiste a quase todos os jogos. "Acabei de fazer 70 anos e, há alguns anos, decidi parar com tudo. Só quero aproveitar a vida, minha família, meus filhos, meus netos e viajar."
Ao longo dos anos, ele recusou com educação convites para trabalhar como treinador, consultor, diretor esportivo ou comentarista de TV. Já não tem mais essa vontade. Seus últimos cargos profissionais foram no início dos anos 2000, principalmente como técnico das Ilhas Faroé (1994–2001). "Pode parecer estranho, mas foi o melhor trabalho que tive. Tudo precisou ser construído do zero e eu não tinha pressão por resultados. Não tinha jogadores profissionais e tive que começar do zero. Alguns até praticavam outros esportes. Tive que negociar com as federações para dizer que eles precisavam focar no futebol. Foi muito divertido. E, com muito trabalho, conseguimos alguns resultados. Chegamos a empatar 1 a 1 com a Escócia. Fiz o mesmo em Luxemburgo (2001–2004). Depois disso tudo, parei para aproveitar a vida."
Uma perna quebrada contra a França
Todos os anos, o dinamarquês viaja para a Alemanha, Espanha ou Inglaterra para visitar antigos companheiros de equipe e assistir a alguns jogos europeus, principalmente os que envolvem seus ex-clubes: Borussia Mönchengladbach, Barcelona e Charlton Athletic. "Isso é vida. Poder viajar, ver futebol e simplesmente aproveitar em paz." A popularidade dele em casa continua tão alta quanto sempre. Uma pesquisa recente na imprensa dinamarquesa ainda o coloca entre as personalidades favoritas do país.
Em 2013, Allan Simonsen chegou às semifinais do "Dança com as Estrelas" da Dinamarca, obrigando os produtores do programa a mudarem as regras de votação por SMS. "Foi porque 80% dos votos iam para ele, apesar das suas habilidades limitadas na dança", lembra um jornalista dinamarquês, sorrindo. O próprio Simonsen comenta: "Me diverti muito fazendo aquilo."
No centro de Vejle, o departamento de arquivos da cidade acabou de inaugurar uma exposição dedicada ao herói local, que fica em cartaz até o fim de agosto. A prefeitura da península da Jutlândia também planeja inaugurar uma estátua em sua homenagem, em frente ao estádio, nos próximos meses. "Você tem noção da sorte que tenho de viver tudo isso ainda em vida? Como eu não estaria feliz?", diz Simonsen. "Sempre que saio pela cidade, as pessoas me param, pedem fotos e fazem perguntas. Até hoje, anos depois de me aposentar, adolescentes ainda me param."
Sentado com uma xícara de café, o ex-internacional dinamarquês folheia algumas fotos da sua carreira, impressas especialmente para a ocasião. A primeira mostra um aperto de mão com Michel Platini antes de um jogo contra a França (derrota por 1 a 0 em 12 de junho de 1984). "Um jogador extraordinário", comenta. "Em 1984, no nosso primeiro jogo da Eurocopa, fraturei a tíbia disputando a bola com um jogador francês (Yvon Le Roux). Mas não foi culpa dele de jeito nenhum. Foi só azar. Depois disso, nunca mais voltei ao meu melhor nível."
Outra foto mostra sua época no Charlton, na segunda divisão inglesa, depois de uma passagem bem-sucedida pelo Barcelona. "Tive a oportunidade de assinar com o Tottenham na primeira divisão inglesa, mas eu estava cansado de viver sob pressão o tempo todo. Muita gente não entendeu a minha escolha. Tentei explicar, dizer que não queria mais viver com esse tipo de cobrança, mas nem todos compreenderam", diz ele, rindo. "Não tem problema. Eu só queria jogar futebol por prazer e aproveitar a vida. Morava em Londres, uma cidade grande e bonita, onde podia ir a shows, exposições e curtir minha família, tudo isso enquanto ainda jogava. Eram coisas que eu já não conseguia fazer em Barcelona."
Salsicha ou Ballon d'Or?
Outras fotos mostram seu triunfo no Ballon d'Or. Seus olhos brilham e os sorrisos aparecem. "Não existe nada maior para um jogador. Quando eu tinha 14 anos, meus pais escreveram uma música para a minha confirmação. Ela falava de todos os sonhos que eu queria realizar e que eu tinha contado para eles. Tinha o desejo de me tornar profissional, de jogar na Espanha, de levar minha avó para ver um jogo na Itália, de jogar pela seleção dinamarquesa. Tudo isso aconteceu. Mas eu nunca tinha falado do Ballon d'Or. Para mim, era algo impossível de alcançar. E no fim eu ganhei... É incrível. É o maior prêmio que existe. As pessoas falam disso comigo todos os dias. Até hoje. Vocês não imaginam o orgulho que eu sinto por ter conquistado esse troféu."
"Mal posso esperar para ter meu Ballon d'Or de volta em casa, admito que sinto falta dele."
Era 1977. Jogando pelo Borussia Mönchengladbach, ele foi campeão alemão e chegou às finais da Taça dos Clubes Campeões Europeus (derrota por 3 a 1 para o Liverpool) e da Taça Intercontinental (contra o Boca Juniors, 2 a 2 e 0 a 3). A lembrança de como ele recebeu a notícia continua bem viva, justamente por ter sido algo tão inesperado. "Eu tinha acabado de jogar um torneio indoor. No fim do dia, um dos meus melhores amigos veio falar comigo e disse: 'Allan, a Anette (sua primeira esposa) acabou de me ligar. Um jornalista francês ligou para a sua casa, você acabou de ser eleito o melhor jogador da Europa. Você ganhou o Ballon d'Or.'"
"Eu não acreditei nele de jeito nenhum. Eu estava com fome, a gente estava em frente a um carrinho de comida, e eu respondi: 'Tá bom, tá bom, você quer comer uma salsicha?' Eu não entendi o que estava acontecendo. Ele insistiu e disse: 'Acredita em mim, é verdade.' A gente foi para casa e abriu uma garrafa de champanhe. Foi incrível um jogador escandinavo ganhar o maior troféu que existe para um jogador."
Classificação do Ballon d'Or de 1977
1. Allan Simonsen (DIN, Mönchengladbach), 74 pontos
2. Kevin Keegan (ING, Liverpool/Hamburgo), 71 pts
3. Michel Platini (FRA, Nancy), 70 pts
4. Roberto Bettega (ITA, Juventus), 39 pts
5. Johan Cruyff (HOL, Barcelona), 23 pts
6. Klaus Fischer (RFA, Schalke 04), 21 pts
7. Tibor Nyilasi (HUN, Ferencvaros), 13 pts
-. Rob Rensenbrink (HOL, Anderlecht), 13 pts
9. Dudu Georgescu (ROM, Dínamo Bucareste), 6 pts
10. Emlyn Hughes (ING, Liverpool), 5 pts
-. Berti Vogts (RFA, B. Mönchengladbach), 5 pts
-. Steve Heighway (IRL, Liverpool), 5 pts
Em 2005, o dinamarquês voltou a Paris para a celebração dos 50 anos do Ballon d'Or, uma memória que jamais vai esquecer. Lá, encontrou Ronaldo, Luís Figo e Platini, e ainda conversou com Marco van Basten e Lothar Matthäus. "Foi fantástico. E pensar que faço parte da mesma família que esses campeões é simplesmente incrível..."
Por muito tempo, o troféu ficou exposto no museu de Vejle, mas nos últimos dois anos tem estado no museu de Mönchengladbach. "Confesso que sinto falta dele. É justo que os torcedores alemães o vejam e que o clube se beneficie disso. Tudo isso também é graças a eles. Mas mal posso esperar para que ele volte para casa e eu possa colocá-lo no melhor lugar possível."
Uma visita à mãe e um jogo do Bayern
O troféu vai se juntar a outras lembranças espalhadas pela casa: fotos, recortes de jornal e camisas. "Sempre que vejo essas coisas, sou transportado de volta a todos aqueles anos incríveis. É a mesma sensação quando acompanho meus antigos times jogando. Sigo-os de perto, vejo muitos jogos; adoro o futebol moderno. Hoje os jogadores podem se expressar melhor e são mais protegidos pelos árbitros. Isso não acontecia tanto no meu tempo..."
O telefone toca. Do outro lado, está sua mãe de 97 anos. "Ela ainda está viva e bem. Vê? Tenho muita coisa para fazer na vida. Vou visitá-la logo depois disso, e depois volto para casa." O Bayern de Munique joga à noite. "Perfeito. Esse é o meu plano para hoje à noite. A vida não é maravilhosa?"