O gigante brasileiro da Premier League

Se você perguntar para os torcedores de futebol quem foi o maior goleiro da Premier League na última década, a resposta quase sempre será a mesma: Alisson Becker. O gigante brasileiro chegou ao Liverpool em meados de 2018 e, desde então, se transformou num dos jogadores mais inesquecíveis da história do clube - respeitado pelos companheiros, temido pelos adversários e querido pela torcida.

Sua trajetória pelos Reds é marcada por momentos que definem uma carreira no futebol. Momentos como as defesas quase impossíveis contra o Barcelona na Liga dos Campeões de 2018-19, que permitiram ao Liverpool protagonizar uma das viradas mais lendárias da competição. Ou como as oito defesas acrobáticas na final contra o Tottenham Hotspur, garantindo o sexto título europeu do clube e gravando o nome ‘Alisson’ no coração da torcida. Com o tempo, essas defesas extraordinárias se tornaram a sua marca registrada - seja na Premier League, na FA Cup, na Liga dos Campeões ou em qualquer outro palco.

Alisson no Liverpool (baseado em abril de 2026)

Estatística

Número

Partidas sem sofrer gols na Premier League

104

Partidas sem sofrer gols na Liga dos Campeões

31

Títulos pelo Liverpool

8

Apesar de ser reconhecido como um dos maiores goleiros da era moderna, talvez o momento mais marcante de Alisson pelo Liverpool não veio de uma defesa.

Veio de um gol.

A última chance na primavera inglesa

A data: 16 de maio de 2021.

O cenário: The Hawthorns, casa do West Bromwich Albion.

Uma tarde de primavera que já carregava o peso de uma temporada longa e desgastante. O Liverpool de Jürgen Klopp viajava até o coração das ‘Midlands’ inglesas, sabendo exatamente o que estava em jogo.

Os Reds vinham de meses difíceis. Tinham começado a temporada como favoritos - campeões recentes -, mas a sorte não estava ao lado deles. Num período de estádios vazios por causa da COVID-19, o time não conseguia repetir o brilho do ano anterior. Para piorar, as lesões devastaram a equipe. Virgil van Dijk e Joël Matip, pilares da defesa, ficaram longos períodos fora, e Joe Gomez também estava ausente. Meio-campistas tiveram que recuar, improvisando como zagueiros, carregando nas costas uma responsabilidade que não era sua. 

O título já estava fora do alcance. Mas ainda existia uma chance - pequena, frágil, mas viva - de terminar entre os quatro primeiros e garantir uma vaga na próxima Liga dos Campeões. Uma vitória contra o West Brom valeria três pontos preciosos, capazes de manter o sonho aceso. Uma derrota, por outro lado, apagaria tudo.

O próprio Klopp sabia do tamanho daquele momento decisivo: “Se fosse uma vitória, estaríamos com um pé na Liga dos Campeões; se fosse um empate, ainda teria uma chance, mas mínima; se fosse uma derrota… tudo acabaria.” (Liverpool FC YouTube)

Do outro lado estava o West Bromwich Albion, já rebaixado.

Nada a perder contra tudo a conquistar.

A bola rolou.

Entre a derrota e a esperança

Por um tempo, parecia que tudo realmente ia escapar das mãos do Liverpool.

Aos 15 minutos do primeiro tempo, Hal Robson-Kanu, atacante galês do West Brom, recebeu um passe perfeito do brasileiro Matheus Pereira (atual Cruzeiro) pela direita e finalizou com precisão para o fundo da rede.

Com esse gol - o primeiro dele na Premier League em mais de três anos - Robson-Kanu parecia ter dado o golpe final nas esperanças do Liverpool de chegar à Liga dos Campeões.

Os jogadores e a comissão do West Brom comemoraram. Mesmo com o rebaixamento inevitável, vencer o Liverpool significaria sair de cabeça erguida, derrotando um dos gigantes da liga. O técnico Sam Allardyce também sabia que uma vitória poderia ajudá-lo a manter o cargo.

Mas os Reds se recusaram a se render sem lutar.

Os minutos seguintes foram tensos, cheios de chances e tentativas. O Liverpool pressionava desesperadamente em busca do empate.

Até que, aos 33 minutos, o craque egípcio Mohamed Salah recebeu um passe de Sadio Mané e acertou a bola no canto da rede.

Empate.

Um suspiro de alívio, mas ainda longe do fim.

O jogo continuava totalmente indefinido.

Para frustração dos torcedores do Liverpool, o West Brom se defendia com organização e eficiência, resistindo a uma série intensa de ataques.

Roberto Firmino acertou a trave.

Mané balançou a rede, mas o gol foi impedido.

A vitória simplesmente não chegava para o Liverpool. E, à medida que o tempo passava, o sonho da Liga dos Campeões parecia cada vez mais distante.

O relógio avançava, e com poucos minutos restantes, o destino do jogo parecia selado.

Aos 42 minutos do segundo tempo, Sam Johnstone fez uma defesa crucial e impediu o gol de Thiago Alcântara.

Aos 44, Georginio Wijnaldum finalizou, mas por muito pouco errou o alvo.

O jogo entrou nos acréscimos: quatro minutos.

Chegou aos 48 minutos do segundo tempo. 

Faltava só mais um minuto. Apenas 60 segundos para manter viva a esperança.

Escanteio para o Liverpool. 

Trent Alexander-Arnold se posicionou para cobrar.

Todos os jogadores do Liverpool correram para a área - 10 camisas vermelhas cheias do mesmo desejo ardente.

E, junto com eles, mais um jogador avançava: Alisson Becker. O goleiro de confiança do time se jogou no tumulto, tentando atrair a atenção dos defensores e abrir espaço para um companheiro.

A bola veio.

Nenhum defensor do West Brom conseguiu afastar. 

Nenhum atacante do Liverpool conseguiu alcançar. 

Exceto ele.

Acima de todos, Alisson subiu e cabeceou.

Por um instante, o mundo pareceu parar.

E então… explodiu.

Gol.

O gol improvável, o milagre vermelho

Alisson correu sem acreditar, comemorando. Os companheiros o cercaram - rindo, mas claramente emocionados. O abraçaram enquanto ele fechava os olhos e apontava para o céu.

O peso daquele gol era impossível de ignorar: o primeiro de um goleiro numa partida oficial na história do Liverpool, clube fundado em 1892.

Para Alisson, porém, aquele momento significava muito mais do que uma vitória decisiva ou um feito histórico.

Significava resistir à dor.

Seguin Franck (Presse Sports)

Três meses antes, seu pai, José Agostinho, tinha morrido tragicamente aos 57 anos. Foi ele quem apresentou o futebol para Alisson e o irmão mais velho, Muriel, brincando com eles quando eram crianças e mostrando a magia de ser goleiro. Quando a notícia chegou, Alisson percebeu que não poderia voltar para casa para o enterro - sua esposa, Natália, estava grávida do terceiro filho, e os casos de COVID estavam aumentando novamente no Brasil. O risco era alto demais, e ele não podia deixar a família na Inglaterra. No fim, acompanhou a cerimônia pelo FaceTime, com Muriel segurando o celular para que pudesse participar, mesmo à distância.

O homem que o tinha criado, que o tinha ensinado a amar o futebol, não estava mais ali. E ele nem sequer pôde se despedir pessoalmente.

Mesmo assim, precisou seguir em frente.

Mas como se concentrar no futebol quando tudo dentro de você parece despedaçado? 

Alisson não conseguia segurar as lágrimas durante os treinos, desmoronando nos momentos mais inesperados.

Mas ele não estava sozinho.

Seus companheiros do Liverpool estavam ao lado dele - pacientes, compreensivos, presentes. Ofereceram apoio real, até mesmo a possibilidade de um voo particular para que ele pudesse estar no enterro. Entenderam que aquele companheiro, que tantas vezes salvou o time dentro de campo, agora precisava de ajuda fora dele.

Poucos compreendiam Alisson tão profundamente quanto Klopp. O treinador também tinha perdido os pais no início de 2021 e, assim como o goleiro, não pôde voltar para casa (Alemanha) por causa da pandemia. Cuidou de Alisson com a mesma empatia que tinha recebido.

Cercado por esse apoio, Alisson começou a redescobrir o prazer nos treinos e a esperar pelos jogos. O futebol virou um refúgio - um lugar onde, por alguns instantes, podia aliviar a dor.

Três meses depois da morte do pai, nasceu seu terceiro filho, Rafael.

E apenas uma semana depois do nascimento de Rafael, veio aquele gol.

Luz após a tempestade

As emoções daquela comemoração ganham outra dimensão quando se entende esse contexto. 

Companheiros chorando. Klopp vibrando. Alisson apontando para o céu, olhos fechados.

O gol ajudou a garantir ao Liverpool um lugar entre os quatro primeiros da Premier League, assegurando a tão sonhada vaga na próxima Liga dos Campeões. O clube chegaria à final, terminando atrás apenas do Real Madrid, maior campeão da história da competição. Na temporada seguinte, o Liverpool também conquistaria a FA Cup e a EFL Cup.

O hino do clube, cantado em Anfield e ao redor do mundo, carrega uma das mensagens mais poderosas do futebol: “You’ll Never Walk Alone”. (“Você Nunca Caminhará Sozinho”)

Para Alisson, aquilo nunca tinha feito tanto sentido.

Mesmo sem torcida naquela tarde em The Hawthorns, o espírito daquela frase parecia ecoar pelo estádio. Alisson tinha chegado no ponto mais baixo de sua carreira - e, ainda assim, encontrou forças para se reerguer.

Naquele momento improvável, cercado por quem o apoiava, ele acabou conseguindo um verdadeiro milagre: um gol impossível, necessário, eterno.

Ele próprio descreveu a emoção daquele dia: ‘Foi ainda mais especial por estarmos jogando em estádios vazios, sem o barulho da torcida, porque a única coisa que eu conseguia sentir era o carinho dos meus companheiros, que me ajudaram a atravessar o momento mais difícil da minha vida. Todo o nosso banco, a comissão técnica e os preparadores gritavam tão alto que parecia que estávamos de volta em frente ao Kop (em Anfield). Lembro que olhei para o céu, e era um daqueles dias cinzentos e chuvosos da Inglaterra. Mas, para mim, o céu estava cheio de luz.’ (The Players’ Tribune)