Arte pelo alto
Alexis Mac Allister costuma marcar belos gols de cabeça.
Na última rodada da temporada 2023-24 da Premier League, o Liverpool precisava vencer o Wolverhampton para garantir uma vaga na Liga dos Campeões.
No meio do primeiro tempo, o argentino recebeu um cruzamento preciso e cabeceou com categoria, mandando uma bola indefensável no canto do goleiro.
Sete meses depois, sua equipe voltou a enfrentar dificuldades. O Liverpool perdia por 1 a 0 para o Everton, no Goodison Park, em um clássico de Merseyside disputado com muita intensidade.
Um cruzamento de Mohamed Salah saiu um pouco mais alto do que o ideal para o ex-jogador do Brighton, que se ajustou no ar de forma impressionante. Mesmo inclinado para trás em uma posição pouco natural, Mac Allister conseguiu desviar a bola por cima do ombro e balançar as redes.
Foi um lance de pura qualidade criado por dois jogadores indicados ao Ballon d'Or.
Neste domingo, o jogador de 27 anos voltou a brilhar, desta vez com a camisa da Argentina e no maior palco do futebol.
Apenas dez minutos após o início das quartas de final da Copa entre Argentina e Suíça, ele apareceu bem em uma cobrança de escanteio e, com um cabeceio preciso, marcou o gol que deu uma vantagem importante à La Selección.
Ao rever o lance, outro detalhe chama atenção: a movimentação inteligente do meio-campista antes de marcar seu sétimo - e mais importante - gol pela seleção.
Uma pequena finta. Uma arrancada para atacar o espaço. Movimentos típicos de um centroavante experiente, executados por um jogador que passou toda a carreira atuando no meio-campo.
Do esquecimento ao título de campeão do mundo
A estreia de Alexis Mac Allister pela seleção argentina parecia indicar um futuro promissor. No entanto, após duas partidas em 2019, ele passou por um surpreendente período longe da equipe nacional.
A ausência ficou ainda mais inesperada diante da evolução que vivia em sua carreira por clubes.
Naquele mesmo ano, o meio-campista, nascido em Santa Rosa, deixou Buenos Aires rumo à costa sul da Inglaterra e rapidamente se destacou na Premier League com a camisa do Brighton.
Com o passar do tempo, suas grandes atuações renderam uma transferência milionária para o Liverpool, onde conquistou um título da Premier League e foi eleito para a Seleção do Ano da PFA.
Mesmo com esse crescimento, Mac Allister precisou esperar dois anos e meio para voltar aos planos de Lionel Scaloni. Desde então, porém, se consolidou como titular absoluto e peça fundamental da seleção argentina.
Em 2022, esteve em campo durante praticamente toda a campanha que levou a Argentina ao seu terceiro título da Copa do Mundo, conquistado em uma final emocionante contra a França.
Foi dele a assistência para o gol de Ángel Di María, após uma arrancada impressionante no contra-ataque contra os franceses, que colocou a Argentina em vantagem por 2 a 0 antes de a partida se transformar em um dos jogos mais emocionantes da história das Copas.
Dois anos depois, voltou a desempenhar um papel decisivo em outra conquista histórica, ajudando a Argentina a levantar sua 16ª Copa América, um recorde.
Agora, em 2026, Mac Allister volta a ser um dos destaques da equipe, conduzindo a Argentina a mais uma semifinal de Copa.
A Copa de 2026 de Alexis Mac Allister em números:
Participações em gols: 2
Passes por 90 minutos: 59,9
Passes decisivos: 5
Desarmes: 18
Duelos ganhos por 90 minutos: 10,7
Sprints: 176
Um quarterback do futebol
É apropriado que o grande momento individual de Alexis Mac Allister com a famosa camisa azul e branca tenha acontecido de cabeça. Afinal, esse sempre foi um dos recursos que ele domina com excelência.
Dono de uma inteligência tática acima da média e de uma compreensão natural dos espaços, Mac Allister tem na leitura de jogo uma de suas maiores qualidades. Isso lhe dá um tempo extra quando está com a bola e, sem ela, poucos conseguem antecipar jogadas e fazer recuperações defensivas tão importantes quanto ele.
Essa característica faz dele uma peça valiosa atuando logo à frente da defesa, um verdadeiro "quarterback" capaz de controlar o ritmo da partida e alternar passes curtos com lançamentos verticais precisos para quebrar linhas.
Mac Allister passou a atuar como volante pela primeira vez em sua terceira temporada no Brighton. Mais tarde, Jürgen Klopp também o utilizou diversas vezes nessa função no Liverpool.
No início de 2024, após uma vitória do Liverpool na Premier League, Klopp explicou por que um jogador conhecido principalmente por atuar mais avançado era tão eficiente em uma posição mais recuada.
"Ele tem a inteligência tática necessária para desempenhar essa função. É um jogador de primeira classe, com e sem a bola. Compreende o jogo."
Seu técnico na seleção argentina, Lionel Scaloni, foi ainda mais enfático nesta semana ao elogiar o meio-campista, que recebeu uma indicação ao Ballon d'Or em 2025.
"É um dos melhores", resumiu.
O que esses treinadores de elite admiram em Mac Allister não é apenas seu desempenho ou sua influência dentro de campo, mas sua capacidade de tomar a decisão certa em praticamente todas as jogadas: saber quando pressionar, quando recuar, quando quebrar linhas e quando desacelerar o ritmo da partida.
Cada uma dessas decisões é processada em questão de instantes por uma das mentes táticas mais brilhantes do futebol atual.
E é a Argentina quem está colhendo os frutos dessa inteligência nesta Copa.