Alguns jogadores ficam marcados por um único momento.

Para os mais azarados, pode ser um gol contra em um jogo decisivo ou uma expulsão. Outros, porém, aparecem quando mais importa, realizando algo especial no maior palco de todos.

Estamos em 26 de julho de 2022, em Bramall Lane, Sheffield. As "Lionesses" da Inglaterra vencem por dois a zero em uma semifinal do Euro contra uma Suécia considerada perigosa antes do jogo. O perigo ainda está ali. A vitória ainda precisa ser confirmada.

Aos 68 minutos, Fran Kirby encontra espaço pela direita da defesa sueca e faz um passe para trás. Alessia Russo já estava posicionada, antecipando a jogada. Esse é o tipo de gol que muita gente pode resumir como "estar no lugar certo na hora certa", mas que na verdade exige inteligência e leitura de jogo.

Ela finaliza, mas a goleira faz uma boa defesa, e a bola sobra para o lado. Russo reage rápido, chega antes de todo mundo, mas agora está a vários metros do gol e de costas.

É o momento. Aquele que a define.

Um toque de calcanhar improvisado surpreende todo mundo, incluindo a goleira, que vê a bola passar por entre as pernas. Um gol espetacular, que acabaria sendo indicado ao Prêmio Puskás. É um gol muito característico de Alessia Russo.

O torneio que mudou sua vida

Apesar de ter ficado tão impressionado quanto todo mundo ao ver esse lance, Chris Brookes, editor da revista She Kicks, diz que foi apenas mais um de vários momentos marcantes da jogadora.

“É curioso como o gol de calcanhar contra a Suécia é provavelmente o mais lembrado, quando na verdade ela já teve momentos ainda mais impactantes.

Os gols contra a Colômbia e a Austrália na Copa do Mundo de 2023 foram muito importantes; um garantiu a vitória nas quartas de final e o outro fechou a semifinal diante de quase 76 mil pessoas em Sydney.”

Ainda assim, ele reconhece o peso daquele momento:

“Foi no Euro 2022 que o perfil dela explodiu, e hoje ela vive uma realidade bem diferente, com capas de revista, eventos e muitos patrocínios. Mas ela continua correspondendo dentro de campo.”

Aquele momento - o momento - foi o quarto gol da atacante no torneio, todos importantes para a conquista do título europeu pela Inglaterra. E o que veio depois seguiu no mesmo nível.

Desde então, chegou a mais duas finais com a seleção - com Russo marcando na final da Copa do Mundo de 2023, mesmo sem título. Ao nível de clubes, uma temporada excelente com o Arsenal no ano passado fez com que ela dividisse a artilharia da WSL. Seus oito gols na Europa também foram importantes na conquista da Liga dos Campeões pelas Gunners.

Como reconhecimento, terminou em terceiro lugar no Ballon d’Or feminino em outubro passado.

Russo hoje está no topo do futebol mundial, um talento de elite admirado e respeitado pelas companheiras. Ainda assim, tudo começou com um caminho exigente na juventude - um percurso que pediu coragem.

Tudo começou com uma mudança de vida para o "Tarheel State", mais conhecido como Carolina do Norte.

O chamado da América: uma oportunidade para crescer

O caminho de Russo parecia bem definido ainda na adolescência.

Descoberta pelo Chelsea aos 11 anos, entrou na base do clube, evoluiu ao longo de seis anos, tornou-se capitã e representou a Inglaterra nas categorias de base.

Então surgiu a oportunidade de estudar e jogar na Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill - uma chance difícil de recusar.

Segundo a própria jogadora, ela sempre teve curiosidade sobre os Estados Unidos. Além disso, a ida para lá significava trabalhar com Anson Dorrance, uma figura histórica do futebol universitário, que já havia conquistado 16 títulos da NCAA com os Tar Heels.

Dorrance era conhecido por exigir muito e por desenvolver uma mentalidade vencedora nas suas jogadoras.

“Quando eu era mais nova, minha competitividade nem sempre era valorizada”, disse Mia Hamm, bicampeã mundial. “Na Universidade da Carolina do Norte, isso era totalmente aceito. Querer ser a melhor fazia parte.”

Caixa de dados - Na Finalíssima de 2023 entre Inglaterra e Brasil, Russo correu 8,73 km e chegou a uma velocidade máxima de 28,4 km/h

A influência dos Tar Heels: como os EUA moldaram uma estrela

Na época, o futebol feminino na Inglaterra ainda não tinha o nível de estrutura atual. Por isso, muitas jovens buscavam bolsas nos Estados Unidos, entrando no sistema universitário e se desenvolvendo em vários aspectos.

Jogar regularmente na ACC, diante de milhares de pessoas, colocava essas atletas em um ambiente de pressão e visibilidade. Também havia a parte física - Russo já comentou que praticamente não frequentava academia antes de se mudar.

Além disso, elas estavam inseridas em uma cultura de vitória e em um ambiente extremamente competitivo.

Antes dela, jogadoras como Rachel Daly, Lucy Bronze e Karen Bardsley já tinham seguido esse caminho - o que ajuda a explicar o sucesso recente da Inglaterra.

Louise Beltrame-Bawden, da Stats Perform, resume bem:

“Durante muito tempo, as jogadoras inglesas não tinham a estrutura ideal. Nos Estados Unidos, encontravam tudo: ambiente, instalações e apoio científico. E, principalmente, jogos de alta intensidade.”

Todos os dias, Russo treinava forte. Todas as semanas, competia em alto nível. Como jogadora, evoluiu bastante. Como pessoa, também cresceu.

Do sucesso universitário à glória mundial

Russo conquistou vários prêmios nos Estados Unidos, incluindo presença na equipe ideal da ACC por três anos seguidos.

No segundo ano, já era conhecida por marcar gols decisivos - muitos deles em jogos importantes e, frequentemente, gols bonitos.

Vieram títulos, incluindo o primeiro campeonato dos Tar Heels em oito anos, enquanto ela era constantemente eleita a melhor jogadora ofensiva da semana.

Quando decidiu encurtar sua passagem e voltar para a Europa em 2020, chamou a atenção de grandes clubes. Mas havia um destino claro: o Manchester United.

“Sou torcedora do United desde sempre”, disse ao The Guardian.

Os gols vieram naturalmente na WSL, com temporadas de dois dígitos e continuidade após sua ida para o Arsenal. Mas o mais evidente foi a evolução do seu jogo.

Ela sempre teve finalização forte e habilidade no drible, mas nos Estados Unidos desenvolveu muito o jogo de costas para a marcação - algo que seu treinador trabalhou bastante. Um ano depois, esse aspecto já era considerado “extraordinário”.

Também aprendeu a canalizar melhor sua agressividade, sendo competitiva com mais controle e propósito.

Um lugar entre as melhores

Com essas qualidades, somadas ao faro de gol, Alessia Russo chegou à elite do futebol mundial.

Conquistou títulos nacionais e europeus e passou a figurar entre as melhores do mundo no Ballon d’Or. Com a base construída no futebol universitário americano, sua evolução foi constante.

2025 marcou sua primeira presença na disputa pelo Ballon d’Or.

E dificilmente será a última.