O fim de uma era na Seleção 

Depois de uma derrota dolorosa por 2 a 1 para a Noruega - resultado que eliminou o Brasil da Copa do Mundo deste ano - Neymar, de cabeça baixa e com lágrimas nos olhos, parou para uma breve entrevista no caminho para o vestiário e resumiu tudo de forma direta: “Tentei, tentei. Agora acabou. Comecei aqui, fechei aqui.” (Globo)

A fala, ao que tudo indica, não deixa muita margem para interpretação: é o anúncio de sua aposentadoria da Seleção.

Aos 34 anos, o craque do Santos teve uma trajetória marcada por altos e baixos com a camisa do Brasil. Ainda que o desfecho tenha sido duro, deixa para trás lembranças que atravessaram fronteiras - dribles fora do comum, finalizações decisivas e a rara capacidade de mudar um jogo a qualquer instante.

E como ele mesmo sugeriu, essa história começou justamente onde terminou: no MetLife Stadium, em Nova Jersey, em 9 de agosto de 2010, num amistoso contra os Estados Unidos. Ainda com 18 anos, Neymar estreou marcando um gol.

Não foi só o brilho de um estreante inspirado - foi um aviso do que viria pela frente.

O maior goleador do Brasil

Ao longo de 16 anos, em 10 grandes torneios internacionais e sob o comando de oito técnicos diferentes, Neymar seguiu deixando sua marca pela Seleção Brasileira. 

Em setembro de 2023, superou os 77 gols de Pelé e se tornou o maior artilheiro da história do Brasil.

Ao converter o pênalti do Brasil já nos minutos finais da partida de ontem, Neymar encerrou sua carreira internacional com 80 gols pela Amarelinha.

Maiores artilheiros da Seleção Brasileira:

  1. Neymar - 80 gols

  2. Pelé - 77 gols

  3. Ronaldo - 62 gols

  4. Romário - 55 gols

  5. Zico - 48 gols

  6. Bebeto - 40 gols

  7. Jairzinho / Rivaldo - 35 gols

  8. Ronaldinho - 33 gols

  9. Ademir de Menezes / Tostão - 32 gols

  10. Zizinho - 30 gols

Entre os jogadores ainda em atividade que também disputaram a Copa deste ano, os maiores artilheiros atrás de Neymar ainda estão bem longe do seu recorde: Lucas Paquetá, de 28 anos, e Vinícius Júnior, de 25, somam 13 gols cada pela Seleção.

O repertório ofensivo

Curiosamente, o último gol de Neymar com a camisa do Brasil será sempre lembrado como um pênalti - uma das especialidades do atacante e também a segunda forma mais comum de gol que marcou com a camisa da Seleção.

Tipos de gol marcados por Neymar pelo Brasil:

  1. Chute de perna direita - 36

  2. Pênalti - 22

  3. Chute de perna esquerda - 11

  4. Cobrança de falta direta - 4

  5. Cabeceio - 3

  6. Gol de rebote - 2

  7. Chute de longa distância / Jogada individual - 1

Esses números mostram a versatilidade de Neymar como finalizador, capaz de marcar gols de praticamente todas as formas possíveis dentro de campo.

Gols sem fronteiras

Não chega a ser surpresa que a maior parte dos gols de Neymar tenha vindo contra seleções sul-americanas, mas o craque também deixou sua marca contra adversários de todos os continentes.

Número de gols de Neymar pela Seleção, por continente do adversário:

  1. CONMEBOL (América do Sul) - 30

  2. AFC (Ásia) - 18

  3. UEFA (Europa) - 15

  4. CONCACAF (América do Norte e Central) - 11

  5. CAF (África) - 6

A seleção que mais sofreu com os ataques de Neymar foi o Japão - curiosamente, a mesma equipe que o Brasil derrotou nesta Copa, ainda que sem a participação do camisa 10.

Seleções que mais sofreram gols de Neymar pelo Brasil:

  1. Japão - 9

  2. Peru - 6

  3. Bolívia / Estados Unidos - 5

Por outro lado, algumas seleções tradicionais escaparam: Neymar nunca marcou contra Inglaterra, Bélgica ou Holanda.

A história nas Copas

Mesmo assim, o atacante encerra a trajetória como um dos maiores artilheiros do Brasil na história das Copas do Mundo, com 9 dos seus 80 gols pela Seleção anotados no torneio.

Maiores artilheiros do Brasil em Copas do Mundo:

  1. Ronaldo - 15

  2. Pelé - 12

  3. Ademir de Menezes / Jairzinho / Neymar / Vavá - 9

  4. Leônidas da Silva / Rivaldo - 8

  5. Careca - 7

O gol de ontem também coloca Neymar como o jogador mais velho a marcar pelo Brasil em uma Copa.

Jogadores mais velhos do Brasil a marcar em Copas:

  1. Neymar - 34 anos e 150 dias

  2. Bebeto - 34 anos e 137 dias

  3. Casemiro - 34 anos e 126 dias

  4. Thiago Silva - 33 anos e 278 dias

  5. Nílton Santos - 33 anos e 23 dias

Ao todo, os 9 gols de Neymar em Copas foram distribuídos ao longo das quatro edições que disputou - um feito que o coloca ao lado de Pelé como um dos únicos brasileiros a marcar em quatro Copas diferentes. Ele também está entre apenas quatro jogadores do país a disputar quatro Copas.

Brasileiros que jogaram quatro Copas do Mundo:

  • Djalma Santos (1954, 1958, 1962 e 1966)

  • Pelé (1958, 1962, 1966 e 1970)

  • Cafu (1994, 1998, 2002 e 2006)

  • Neymar (2014, 2018, 2022 e 2026)

Uma trajetória de longevidade

Em número total de partidas pela Seleção, Neymar ocupa a segunda posição, com 130 jogos, atrás apenas do recorde de Cafu, que soma 143. Ele também faz parte de um grupo seleto de apenas oito jogadores da história com mais de 100 atuações pela Amarelinha.

Jogadores com mais partidas pela Seleção Brasileira:

  1. Cafu - 143

  2. Neymar - 130

  3. Roberto Carlos - 127

  4. Dani Alves - 126

  5. Thiago Silva - 113

  6. Marquinhos - 110

  7. Lúcio - 105

  8. Cláudio Taffarel - 102

  9. Robinho - 100

  10. Ronaldo - 99

Marquinhos, que também esteve nesta Copa pelo Brasil, aos 32 anos, ainda parece distante de alcançar os números históricos de Neymar ou de Cafu no futuro.

O zagueiro do Paris Saint-Germain foi o capitão da Amarelinha neste torneio - uma braçadeira que Neymar também já utilizou, em 21 partidas entre 2014 e 2018.

A liderança de Neymar

Mas a liderança de Neymar ia muito além da faixa no braço. Sua influência se refletia principalmente nos gols e na capacidade de criação, com 59 assistências pela Seleção ao longo da carreira, ajudando a impulsionar o time e mantendo o grupo competitivo até o fim.

Um dado que resume bem esse impacto: nas 61 partidas em que Neymar marcou pelo Brasil, a Seleção só perdeu três e empatou outras três - com 55 vitórias no total.

Entre expectativas e frustrações

Mas, como o destino acabou ditando, a trajetória histórica de Neymar pelo Brasil também será lembrada pelos “e se”.

Apesar de ter disputado quatro Copas do Mundo pela Amarelinha, Neymar nunca chegou a uma final nem conquistou o tão sonhado hexacampeonato para o país no torneio.

Campanhas do Brasil nas Copas do Mundo em que Neymar participou:

  • Brasil 2014 - quarto lugar (eliminado pela Alemanha)

  • Rússia 2018 - quartas de final (eliminado pela Bélgica)

  • Catar 2022 - quartas de final (eliminado pela Croácia)

  • América do Norte 2026 - oitavas de final (eliminado pela Noruega)

Essa ausência de títulos na Copa acaba rendendo comparações com Zico - um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro, que igualmente não conseguiu levantar o troféu. Sua melhor campanha foi o terceiro lugar, em 1978.

A maioria dos outros grandes ídolos do Brasil, por outro lado, ficou marcada justamente pelas conquistas mundiais - nomes como Pelé, Garrincha, Ronaldo, Romário, Ronaldinho, Kaká, Cafu e Roberto Carlos.

No fim, a trajetória de Neymar na Copa não teve esse capítulo de título.

Os títulos com a Amarelinha

Seria injusto, porém, dizer que ele não conquistou nenhum título relevante pela Seleção como um todo.

Ainda como jovem, o "Menino Ney" foi artilheiro do Campeonato Sul-Americano Sub-20 de 2011.

Depois, em 2013, foi peça-chave na conquista da Copa das Confederações pelo Brasil - o quarto título do país na história da competição. Foi também a primeira vez em que ele vestiu a camisa 10 da Seleção, número histórico usado por nomes como Pelé, Zico, Rivellino, Sócrates, Raí, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká.

No torneio, marcou quatro gols, incluindo um na final contra a Espanha, e terminou com a ‘Golden Ball’ como melhor jogador da competição.

Também marcou quatro gols na Copa seguinte e, apesar de ter tido a participação interrompida mais cedo por uma lesão nas quartas de final contra a Colômbia, terminou com a Chuteira de Bronze da FIFA e foi incluído na seleção do torneio.

Em 2016, foi o grande nome da campanha olímpica do Brasil no Rio. Como capitão, liderou a equipe até o ouro inédito no futebol masculino, marcando na final contra a Alemanha. O jogo terminou 1 a 1 e o Brasil venceu nos pênaltis, com Neymar convertendo a cobrança decisiva. Foi a primeira medalha de ouro olímpica do país no futebol masculino, depois de três pratas.

Mesmo sem ter conquistado a Copa América, Neymar foi eleito o melhor jogador da edição de 2021, dividindo o reconhecimento com Lionel Messi - companheiro de clube no Barcelona (2013-2017) e no Paris Saint-Germain (2021-2023).

Títulos de Neymar pela Seleção:

  • 2011 - Campeonato Sul-Americano Sub-20

  • 2013 - Copa das Confederações da FIFA

  • 2016 - Ouro Olímpico

A trajetória no Ballon d’Or

Quanto ao Ballon d’Or, Neymar foi indicado nove vezes ao longo de dez anos, chegando ao terceiro lugar em duas ocasiões - em 2015 e 2017.

Indicações de Neymar ao Ballon d’Or:

  1. 2011 - 10º lugar (Santos)

  2. 2012 - 13º lugar (Santos)

  3. 2013 - 5º lugar (Santos / Barcelona)

  4. 2014 - 7º lugar (Barcelona)

  5. 2015 - 3º lugar (Barcelona)

  6. 2016 - 5º lugar (Barcelona)

  7. 2017 - 3º lugar (Barcelona / Paris Saint-Germain)

  8. 2018 - 12º lugar (Paris Saint-Germain)

  9. 2021 - 16º lugar (Paris Saint-Germain)

Essas primeiras indicações o colocam entre os raros jogadores brasileiros a serem indicados ao prêmio ainda atuando por um clube no Brasil.

O único outro brasileiro com tantas aparições na premiação é Ronaldo, que também foi vencedor duas vezes, em 1997 e 2002.

Brasileiros com mais indicações ao Ballon d’Or:

  1. Neymar / Ronaldo - 9 indicações

  2. Roberto Carlos - 8 indicações

  3. Kaká / Rivaldo / Ronaldinho - 6 indicações

  4. Sonny Anderson / Vinícius Júnior - 4 indicações

  5. Dani Alves / Giovane Élber / Juninho Pernambucano - 3 indicações

Um legado que permanece

Então, é isso.

Embora Neymar deva continuar jogando pelo Santos - clube onde também é tratado como lenda, figurando entre os maiores artilheiros da história - esse é o fim da linha para ele com a Amarelinha.

Um jogador que encantou o mundo com seu talento e sua ginga, com uma carreira marcada por gols incríveis, dribles e momentos de magia.

Infelizmente, a história pela Seleção termina sem o troféu mais desejado de todos.

Agora, fica para a próxima geração a missão de continuar esse legado nos próximos torneios.