Oito Ballon d’Ors brilham hoje nas vitrines de Lionel Messi. Mas por trás dos recordes e da consagração final, existe um capítulo decisivo que humanizou o mito: o dia em que ele decidiu renunciar à Seleção Argentina. Longe de ser uma fuga, aquele gesto marcou o início de uma profunda reconstrução.
Durante anos, a renúncia foi associada ao fracasso ou à falta de caráter. No caso de Messi, aconteceu o contrário. Sua saída em 2016 foi uma resposta a uma pressão acumulada por mais de uma década. Uma pressão que não era apenas esportiva… era simbólica, emocional e nacional.
Messi: da renúncia em 2016 à glória eterna
Em 26 de junho de 2016, em East Rutherford, Nova Jersey, a Argentina perdeu a final da Copa América Centenário para o Chile. Era a terceira final consecutiva perdida pela Albiceleste com Messi como capitão, depois da Copa do Mundo de 2014 e da Copa América de 2015. Naquela noite, o atacante desperdiçou seu pênalti na decisão. As imagens de Messi chorando no gramado rodaram o mundo.
Minutos depois, na zona mista, veio o impacto: Messi anunciou sua renúncia à seleção. “A seleção acabou para mim”, disse. “São quatro finais, não é para mim.” Não foi uma frase impulsiva. Foi o resultado de anos de questionamentos públicos, comparações constantes com Diego Maradona e uma narrativa persistente em parte da imprensa argentina que o apontava como incapaz de vencer com a camisa da seleção.
Esse contexto é essencial para entender o episódio. Desde sua estreia, Messi carregava uma expectativa enorme: conquistar com a Argentina tudo aquilo que já havia conquistado com o Barcelona. Cada derrota reforçava a ideia de uma dívida em aberto. Após a final de 2016, o próprio jogador reconheceu o peso disso:
“Já tentei muito. Queria ser campeão com a seleção e não consegui. Sou eu que erro o pênalti.”
Não foi um ato de birra, mas uma confissão. Messi falou de tristeza, esgotamento mental e de uma sensação de injustiça pessoal. Pela primeira vez, o melhor jogador do mundo expôs publicamente sua fragilidade. E, em vez de enfraquecê-lo, isso revelou o lado humano por trás do gênio.
Saber lidar com a frustração: a chave para o sucesso de Messi
As reações foram imediatas. Na Argentina, milhares de torcedores foram às ruas e às redes sociais pedir seu retorno. O lema “Não vá, Leo” se espalhou. Companheiros de equipe, ex-jogadores e dirigentes manifestaram apoio. Paradoxalmente, a renúncia gerou uma onda de empatia que Messi nunca havia sentido de forma tão intensa.
Dois meses depois, em agosto de 2016, ele voltou atrás. Disse que havia refletido, conversado com a família e que o amor pela seleção continuava intacto. Mais tarde, reconheceria que aquela decisão foi fruto de “confusão e cansaço extremo”.
Algo tinha mudado: ele entendeu que não podia carregar sozinho todas as expectativas e que o fracasso também faz parte do caminho.
O prêmio por não desistir
O ponto de virada definitivo chegou em 2021. No Maracanã, a Argentina venceu o Brasil e conquistou a Copa América. Messi, como capitão e protagonista, finalmente encerrou o jejum. Depois da partida, disse que aquele título o fez “ficar em paz” consigo mesmo e com sua trajetória na seleção. Já não jogava para quitar uma dívida, mas para aproveitar.
A partir daí, a história mudou. A Finalíssima, a Copa do Mundo do Catar 2022 e outra Copa América consolidaram Messi como líder e referência de uma equipe que aprendeu a acompanhá-lo. O próprio capitão também se transformou: mais tranquilo, mais coletivo, menos preso à obrigação de vencer.
Com o oitavo Ballon d’Or, Messi fechou um ciclo que não foi linear nem perfeito, mas profundamente humano. Seu legado não está apenas nos títulos, mas no fato de ter mostrado que até os maiores precisam parar, duvidar e se reconstruir.
Sem querer, deixou uma lição que vai além do futebol: às vezes, renunciar não é perder. É o primeiro passo para voltar mais forte - e, finalmente, conquistar tudo.
Os 8 Ballons d’Or de Lionel Messi
2009
2010
2011
2012
2015
2019
2021
2023
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