A capacidade da Copa de unir pessoas além de fronteiras, idiomas e culturas é um clichê antigo, mas que ainda faz sentido.
Ainda assim, não dá para se deixar levar pelo entusiasmo e dizer que o empate emocionante do Irã com a Nova Zelândia, nesta semana, vai mudar muita coisa no lado político ou social. Fora de campo e longe da "Team Melli" (a seleção nacional), os problemas continuam graves.
Nos últimos três meses, o país esteve em guerra com uma das nações anfitriãs da Copa, os Estados Unidos - embora, segundo relatos, tenha sido assinado um acordo de paz ainda não ratificado -, enquanto, na segunda-feira, do lado de fora do SoFi Stadium, em Los Angeles, centenas de manifestantes contrários ao regime deram voz aos seus protestos.
Na preparação para o torneio deste verão, o presidente Trump afirmou que a "vida e a segurança" dos jogadores iranianos estariam em risco caso eles participassem, enquanto alguns membros da comissão técnica do Irã não receberam visto para entrar nos EUA.
Após o jogo de estreia contra os All Whites, a equipe recebeu a instrução de voltar imediatamente para sua base de treinamento em Tijuana, no México. Inicialmente, a ideia era montar o acampamento no Arizona.
Incorporar positividade na conversa
Naturalmente e, de certa forma, compreensivelmente, quase toda a cobertura sobre o Irã até agora tem girado em torno dessas questões mais pesadas, com a política acabando por ganhar mais espaço do que o futebol.
Ainda assim, o desempenho da "Team Melli" em Los Angeles conseguiu trazer o foco de volta ao "jogo bonito", mesmo que só em parte.
Apesar de ter um treinador conhecido por ser mais cauteloso, o Irã foi para cima da Nova Zelândia, e os All Whites responderam na mesma intensidade, o que acabou resultando em um dos jogos mais interessantes do verão até aqui. Foram quatro gols nessa abordagem mais aberta, além de 31 finalizações, sendo 12 no alvo.
Pela Nova Zelândia, Elijah Just se destacou ao marcar duas vezes, enquanto pela Team Melli o grande nome foi mais uma vez o lendário Mehdi Taremi, sempre perigoso e buscando criar oportunidades.
Foi a 105ª convocação do ex-atacante do Porto e do Inter de Milão pela seleção, com 58 gols marcados na carreira internacional.
Em uma bola na trave de fora da área ainda no primeiro tempo e em uma jogada de drible pouco depois, o atacante de 33 anos levantou o estádio; uma atuação que reflete bem sua ideia de que o futebol pode ser uma força positiva, como ele já tinha deixado claro ao chegar aos EUA.
"Estamos aqui como jogadores para unir as pessoas e tentar levar alegria a todos os iranianos, independentemente de onde estejam."
"Cada um pode ter sua própria opinião. Não estamos aqui para nos envolver em política; estamos aqui para jogar futebol."
Um discurso simples, mas forte, que o atacante fez questão de reforçar em Los Angeles. O próximo jogo do Irã é contra a Bélgica no domingo, antes de enfrentar o Egito em Seattle no dia 26 de junho.
Ficha de Mehdi Taremi
Apesar de ter um pai e um irmão mais velho que foram jogadores profissionais, Taremi queria ser policial quando era criança.
Pelo Porto, conquistou duas vezes a Bola de Prata, prêmio dado ao artilheiro da Primeira Liga.
O atacante ficou conhecido pelos seus gols acrobáticos de bicicleta, incluindo o “Gol da Temporada” da Liga dos Campeões de 2020-21, marcado justamente com uma dessas finalizações.
Embora nunca tenha sido indicado ao Ballon d'Or, venceu o Topa Ballon d'Or, prêmio dado ao melhor jogador do Irã.
Ainda assim, já atuou ao lado de vários jogadores indicados ao Ballon d'Or, incluindo Lautaro Martínez e Nicolò Barella.